REQUIEN GRANULAR ___________________________________________________________________________________________
TRILOGIA [S] ________________________________________
VALVERDE ______________________________________________________________________
CONTATO
BIO
INTERIOR _______________________________
DEPOIS DE JUNHO
EIN KLÖTZEL ARCHIV__________________________
METEORA I _________________________
METEORA II _________________________
METEORA III _________________________
HOME ____________
INTEMPESTA __________________________
CERNE ____________________________
me passa um monte de coisas na cabeça. você acha que eu falo? então serei retroativa. minha mãe dizia que se ficássemos olhando muito tempo pra um olho só se conseguiria ver o monstro do outro. e eu consigo ver meu olho daqui. eu vejo dois, mas as vezes foco em um só. e a câmera é o olho que me vê. mas que ele é meu. e vai deformando. mas eu gosto do meu monstro. você acha que se eu ficar só olhando assim já não muda muita coisa? eu acho que sempre estou com a mesma cara, mas pode estar mudando. será que dá pra ler imagem? não dá pra ler imagem. eu sou uma escritora, você sabe? então, por isso eu te pergunto: será que uma imagem assim, quer dizer; eu estou olhando pra mim mesma, estou olhando para os meus olhos que estão refletidos ali. será que isso já não dá para ler? que já não tem mudança, eu estática aqui, será que isso já não muda muito? e, se desse para ler uma imagem, eu ainda seria atriz. nós vamos descobrir. se só a minha imagem já dissesse muito do que eu estou pensando, parada… seria tão bom. se só a cara de uma pessoa, assim, como está, o ponto que eu estou vendo: se desse para ler o que foi a minha vida nessa cara, se desse pra ler o que eu penso nessa cara, se eu não tivesse que me expressar. se fosse só essa cara, neutra. mas se eu disser pra você agora que eu estou muito feliz, e a minha cara não muda, ou que eu estou muito assustada, e a minha cara não muda? (o Eisestein, lembra daquele exercício? um cara pra câmera. se você deixa ele sem nenhuma referência, é só ele olhando pra câmera. se você põe um prato de comida, ele já está com fome). é o entorno o que ressignifica, porque o que está dentro… dá pra ler? (você acha que então, não está na palavra, está na expressão?) eu não, eu não paro de pensar. eu já pensei em 20 coisas ao mesmo tempo aqui. posso ir no pensamento e falar sobre ele. está entendendo? cadernos. um pensamento, cadernos. vou pegá-lo de novo: caderno. são vários cadernos. sempre escrevi em caderno. sou uma escritora de diário. de livro de receita. eu rabisco nos cadernos, gosto dos cadernos. do papel, do cheiro das canetas. eu tenho várias canetas e gosto de cada uma dela, elas são todas recarregáveis. eu tenho a caneta espada, que é uma caneta que eu uso quando preciso ser mais forte. tem a caneta líquida, que eu uso quando preciso discorrer mais. tem as lapiseiras, que é outra coisa. e o que é escrito talvez não importe tanto, o que importa mesmo é o atrito com a folha, com o papel. a caneta com uma pena maior faz um barulho maior. ela tem um pouco mais de dificuldade de deslizar no papel mas a letra fica mais gorda, mais invasiva no branco. eu só gosto de caneta preta e vermelha. e a mesma coisa acontece com o estojo, que é o penal, eu tenho um arsenal de armas com as quais eu posso trabalhar, os cadernos também, são as bases, e eles podem ser muito diferentes: há o caderno de algodão, caderno de papel, um caderno que tem uma cera em cima, então ele desliza mais. caderno para rabiscar, caderno para escrever, caderno para desenhar. não importa o que, entende? o quê escrever.
e agora, você provocando isso eu penso: a minha cara sem dizer nada e só trazendo à tona o fluxo de consciência que estou tendo nesse momento e tentando não perder ele não… não… olha, eu já perdi. pensando em não perder eu já perdi o fluxo, porque eu estava falando disso e ao mesmo tempo eu me lembrei de uma imagem de uma vizinha que pôs fogo na casa. e quando eu acordei e descobri que ela tinha posto fogo no quarto dela eu pensei: ela deve ter tido, em algum momento, em algum segundo antes de dormir ela deve ter apagado o lençol e tentado se cobrir com o cigarro. ela se confundiu. ela não pôs fogo na casa por querer. eu fico pensando nesse segundo, onde deu esse tilt nela, sabe? porque deu um tilt nela. ela quase pôs fogo no prédio. só o quarto pegou fogo. mas nesse momento, como estava a cara dela? no momento do vazio, no momento em que você perde tudo em volta, em que você se confundiu? eu não sei mais mentir, esse é o problema. eu entendo quando você fala do raciocínio ser o do personagem, mas ele é meu. o raciocínio é meu. mas daqui, daqui de onde eu estou; para eu chorar, ou para eu rir, eu não tenho a menor vontade. eu tenho vontade de nada. (ri). e ao mesmo tempo é uma puta exposição, porque eu estou vendo só os meus olhos. as vezes eu vejo um só, as vezes eu vejo os dois, as vezes eu vejo os dois juntos. parece que eu estou lá dentro, da câmera. e ao mesmo tempo, eu não sei mais quem eu sou direito, entendeu? porque eu me sinto a pessoa que eu sempre fui, mas meu cabelo está branco. eu não tenho mais vergonha da minha cara, não tenho mais vergonha do meu nariz. eu ficaria aqui olhando para essa câmera por anos. sem saber muito quem imprime. pra mim quem está imprimindo é esse olho, lá dentro, que está lá dentro. eu existo. limites. fronteira. eu tenho pensado que essa que eu vejo, quando eu vejo, não é tão mais essa que eu sou. porque eu era muito colada na imagem. e agora parece que eu desisti dela. eu não me maquio mais, só passo um batonzinho. pra fazer as peças eu já falei que não me maquio mais. não me aqueço mais pra entrar em cena. a Bel que se maquiava há tanto tempo atrás queria estar inserida em algum lugar. se moldava. a de agora mandou um foda-se. você viu? meu olho escapou e voltou. você viu? eu nunca estava contente com aquela que eu via no espelho e pensava: isso tudo sou eu. eu falava: não é, está ruim. é ruim, eu não caibo em mim. e agora que eu me olho menos, apesar de estar me olhando aqui há uns 10 minutos, eu já não me importo mais em não corresponder ao que, à tudo o que. agora está ficando bom. ver meu rosto como ele é. deixar expandir quando tem que expandir, emagrecer quando tem que emagrecer, o cabelo que muda de cor e de jeito. nunca mais acho que vai ter uma coisa de eu fazer um personagem e mudar meu corpo por causa dele. fugi de mim. isso é muito difícil, não é? eu acho que há três anos atrás eu não conseguiria olhar para esta câmera. eu não conseguiria olhar como estou olhando agora, sabe? eu estaria inventando alguma coisa que seria uma camada fina entre eu e ela, ou seja; entre eu e você para criar alguma coisa que não seja isso aqui que é nada. eu pegaria a vontade que eu tenho de falar dos cadernos e mudaria para alguma coisa mais interessante. a morte do meu irmão. que emocionante isso, também. é mais coerente comigo mesma, talvez eu possa descansar mais sabe? porque é assim. e aí todo o trabalho de virtuose, querer mostrar, querer fazer, querer. fica tão pequenininho. é tão mais legal esse nada. acho que estamos falando da mesma coisa. menos talvez seja muito mais. ([o telefone toca] isso acontece, agora. não vai ser pra mim. nunca é pra mim. aí eu já penso na minha infância, minha mãe falava: era triste te ver pequena. o telefone tocava e nunca era pra você. olha: talvez nem seja pra ele. fugi). imagina quanta coisa está acontecendo agora. mil telefones tocando. várias pessoas atendendo. tanta coisa. não é só aqui. (sobre o que matam na gente). eu, aos 42 anos, estou querendo viver como eu fui aos 16. mas com mais tranquilidade. em relação à isso tem uma coisa que se chama quarto primordial. que pode ser esse, que pode ser o meu aos 17, que pode ser o meu hoje, que pode ser uma sala de trabalho, que pode ser o quarto dos meus filhos. o quarto primordial é um quarto onde tudo acontece. todo mundo tem o seu quarto primordial. que é aquela hora em que você está dentro do quarto e você é muito expontâneo. quarto como uma maneira de dizer, mas é um estado. um estado de juventude, de espontaneidade, de não tenho nada a perder, de vou falar o que eu penso, de vou escrever, de tudo é possível. escutar uma música, dublar essa música na frente do espelho usando uma escova de cabelo e fingindo que é a Madona. e aquilo é tão real e coerente consigo mesmo. ou gostar da menina. um amigo meu me contou que quando ele era pequeno ele entrava no quarto do cara que ele gostava e ficava só olhando para as coisas. e aquilo já era tão bom. ele saía de lá tão vivo que ele tinha vida para mais uma semana. alegria para mais uma semana. e depois ele entrava de novo no quarto do menino e via de novo. mexia na mesa onde o cara tinha mexido. e aí todas as músicas que ele escutava faziam sentido. escutar pela primeira vez uma coisa que te toca e repetir, repetir, repetir. aí você acredita tanto nesse quarto primordial que você acha que é só com você que acontece. você se sente especial. e você tem que pôr isso pra fora de alguma maneira. e ao mesmo tempo, eu acho que o tempo vai passando, e você vai morrendo. porque o teu sonho, a tua vida vai virando um ofício, vai virando um trabalho, vai virando um jeito certo de agir. vai virando um estudo, vai virando uma coleção de referências. e aí quando você vê você está mais uma coleção de referências do que uma coisa coisa espontânea que escuta e reage e está vivo naquele momento. presente, inteiro, completo. por isso eu acho que sou uma escritora. para escrever você tem que estar, escrever diário mesmo. escrever nada, ou rabiscar. ficar fazendo rabiscos. mas cada rabisco é um estar presente. uma relação com a caneta. e nada mais importa. não preciso mostrar nada para ninguém. estou muito viva. (o ratatuile. sabe o ratauile? Gousteau. para mim esse personagem do Gousteau é lindo, porque ele tem um programa na televisão de culinária. e ele prega, não só no programa de televisão como no livro de receitas, que todo mundo pode cozinhar. e o ratatuile é um rato. e ele assiste esse programa e ele acredita nisso. se todo mundo pode cozinhar, ele que é um rato, também). e, de alguma maneira, todo mundo está vivo, está aqui. de repente entrar em cena e falar, talvez não tenha que ter um outro estado e nem a busca de um outro estado, tem que ser o que é agora. porque eu podia estar aqui mas o padeiro também podia, ou a moça que atendeu a gente no café. tudo é tão rico, não é? todo mundo é tão rico. eu acho que eu parei de dar importância para mim mesma. parei de ter ambição. então, se eu ficar sozinha numa ilha, acho que eu tenho que ter um caderninho, só. e quando o caderninho acabar, acho que eu terei aprendido a… a fazer o quê? (tenho. e eu acabei de falar que não tenho ambição). mas eu tenho um plano. tenho um plano desde os 16 anos. parece que eu tenho um plano tão claro que eu fiquei fugindo dele até os 42. só que agora, vendo que acaba - porque acaba - é melhor acreditar logo de uma vez e fazer. e o plano é escrever diário. (já). aí eu percebi que dos 16, 15, até hoje eu só escrevi diários. e que isso é o que me importa. não as peças que eu fiz, nem algumas conquistas que, para mim, são totalmente irrisórias hoje em dia. não consigo nem pensar se são conquistas. conquista do quê? (essas pessoas estão em contato com elas mesmas). acho que toda vez que se toca alguém é porque se está muito no quarto primordial. eu não toco você. eu abro em você a memória daquilo que é o seu quarto primordial. quando você se emociona comigo por eu estar fazendo alguma coisa, eu acho, acredito, que você está pensando em você. é você que tem isso. algumas coisas tocam à algumas pessoas e à outras, não. não é unânime. eu abri com você um canal que outra pessoa poderia não ter aberto. é isso o que eu estou tentando investigar: o que é esse quarto primordial? o que é isso que não é um quarto físico, é um estado. ele é um estado que só pertence a mim mas eu tenho que saber que você também tem um que só pertence à você. e que eles podem se comunicar de alguma maneira. por isso o caderno. são caixas de cadernos. e eu não tenho vontade de mostrar eles para ninguém. e quando eu descobri que os meus cadernos não seriam publicados quando eu morresse eu fiquei mais livre ainda para me estender neles mais ainda. foi libertador. é libertador pensar que eu não sou nada. que eu sou uma pessoa que trabalho para comer. pode ser aqui, pode ser em qualquer outro lugar. eu só tenho uma deficiência, que é: eu preciso ter os cadernos. e as canetas. que eu acho que são pontes. então tudo pode acontecer, eu posso mudar de profissão, contanto que eu tenha os cadernos. a Louise de Bourgeois falava isso: se a gente tem filho, se está tudo difícil, se nunca tem tempo para você, se o teu trabalho te consome, lembra sempre que tem um caderninho e uma caneta em algum lugar. eu acho que por isso é que o Kafka falou para queimarem tudo dele. não importa. quantos Kafkas não foram queimados no mundo? quantos romances de gaveta não existem? sou uma romancista de gaveta. poética da gaveta. tudo na gaveta. tudo nos armários e isso não ser uma frustração, isso ser um tesouro. minha mãe era uma escritora de diários, eu aprendi um pouco vendo. e eu lia escondido, ás vezes, e lia muito os diários dela. sem ela perceber. e quando ela morreu, ela morreu com muita consciência da morte. ela foi se despedindo. e teve um dia em que ela chamou eu e o meu padrasto e fez uma reunião com a gente e mostrou para a gente onde estavam, na escrivaninha dela onde estavam as gavetas com toda a documentação, o que nós tínhamos que fazer antes do óbito para a gente conseguir pegar uma grana a mais dela, sem o inventário, mostrou para a gente que a documentação dela estava em ordem, que ela não tinha dívida nenhuma e não teríamos que arcar com tudo isso, e no meio da conversa eu falei: bom, já que você está fazendo esse rateio, e os diários? eu achei que eu teria direito de ficar com os diários dela, aqueles que eu li durante a vida inteira. e ela já tinha queimado todos. ela pôs todos no tanque de lavar roupa e foi queimando. e deixou um só. um com um a capa de cetim. um caderno japonês com uma capa de cetim vermelha. um caderno que ficou comigo. e a última palavra que ela escreveu, acho que 72 dias antes dela morrer foi: avelã. tinha uma data, que acho que era 17 de julho e estava escrito só avelã. sem ponto, sem nada. foi o único que ela deixou. é um caderno muito bonito, um caderno em que ela está em uma via espiritual em Bloomington, ela é sufi. e tem uma parte do caderno que eu adoro; ela está em Bloomington, no norte dos Estados Unidos, e ela vai ver o túmulo do Sher. que é o guia espiritual. uma coisa do sufismo. e ela fala que acorda, vai ao supermercado, olha as crianças indo para a escola, ela vai ao cemitério, e tudo é igual. parece que não tem mais diferença. achei isso um desapego. é um diário de desapego. e nesse diário tem: hoje queimei todos os outros diários. eu nunca vou ler. mas eu tenho certeza de que na vida dela escrevê-los foi providencial para ela morrer do jeito que morreu. (exato. mas a última palavra eu achei tão bonito, avelã). e aí você pega um outro caderno. o caderno de uma costureira. a costureira está lá costurando horas e ela tem um caderno onde ela mede as coisas. tem medidas e faz desenhos. e de repente ela escreve uma coisinha. porque aquele caderno é dela. com a letra dela. tem o design dela, a grafia dela. é dela. (talvez eu pare de rabiscar os cadernos e comece a rabiscar as paredes). aí eu comecei a me sentir meio deslocada no elenco. de uns tempos para cá. deslocada. o que importa mais é dentro da minha casa, é o caderno caneta mesa. e a minha casa pode ser um quarto de hotel. eu estou em um quarto de hotel péssimo e eu acho delicioso. pode ser um cantinho em algum lugar. eu vejo a minha filha, ela constrói uma casinha embaixo do piano. e é tão bonitinha a casinha, ela está tão protegida dentro da casinha. dá vontade de entrar na casinha. qualquer canto pode ser a sua casinha. não precisa de muita coisa. pra mim precisa levar - ainda - o caderno e a caneta. eu ainda não tive coragem de queimar, mas eu acho que diário é para queimar. e tem uma coisa que eu chamo de escrita na cena. agora eu estou aqui fazendo literatura. (alvo. isso aqui é um alvo). isso aqui também é um caderno que eu tenho amor físico por ele. isso é um caderno feito no Nepal, eu tenho vontade de ir lá aprender a fazer. isso é feito com bambu. é um tipo de algodão. esse caderninho se chama lamale. ele é feito todo à mão. é lindo quando ficam todas as folhas ao sol para secar. eu fiquei com vontade de ir lá ver como eles faziam. porque essa é a materialidade do caderno. eu tenho um monte desses. e hoje em dia eu só participo das coisas fazendo isso. parece que para mim é como lidar com dentro e fora. eu posso estar em qualquer tipo de trabalho, e isso me foca. acho que eu nunca volta para casa mal. tem uma coisa muito louca: eu estou fazendo odes ao suicídio. à força do suicida. de alguma maneira toda libertação que me leva de volta aos 16 anos, ao quarto primordial, agora mais tranquila, sem querer provar muito nada. sem muita ambição. eu sinto que há uma força suicida dentro de mim. e eu tenho pesquisado um pouco sobre isso. o Camus fala muito lindamente sobre suicidas. o Bolaño também. o Bolaño tem uma frase que é: nós temos os piores políticos do mundo, a América Latina tem os piores partidos do mundo, os piores governos do mundo, mas temos suicidas exemplares. e ele pensa na Violeta Parra, no galpão dela, esbravejando, cantando e de repente dando um tiro na cabeça. ele também fala de um escritor chamado Roberto Lira que nunca publicou nada na vida. e o mundo literário não importava muito para o Roberto Lira. o Bolaño fala que importava as camisas coloridas, floridas. importava algumas mulheres que inevitavelmente faziam ele sofrer. importava ele ler os poemas dele na rua. importava o bar, a conversa, o olho no olho da pessoa com quem ele estava falando. e um dia ele resolve que ele vai se matar. e ele escreve, palavras do Bolaño: na sua missiva final ele fala que está se matando por causa do aumento do pão. e o próprio Bolaño fala: ou leite. e ele se mata em uma banheira. quente. com água quente. ele corta os pulsos, e fala que é uma das maneiras mais bonitas de se matar, porque a pessoa tem tempo para se despedir dos entes queridos, para pensar na vida que foi, para chorar, para rir - que ele acha que foi o caso do Roberto Lira, que ele deve ter rido um bocado - e a pessoa vai se despedindo. eu fiquei obcecada com isso, o suicídio. eu descobri que eu tenho essa força suicida dentro de mim e ao mesmo tempo tenho uma paixão pela vida tão maluca, tão forte, eu gosto tanto de viver. estou agradecendo minuto a minuto o que tenho vivido nos últimos três anos. e sinto que essa força suicida com o pólo invertido, com o pólo para viver, a força do suicida pode ser muito bem utilizada. (você entende isso?). tem um raciocínio anterior que é: se o livre arbítrio existe, é uma opção minha estar aqui. é minha essa opção. eu poderia não estar mais aqui. é a mesma coisa que estamos fazendo agora, quando você desligar essa câmera isso que eu estou vendo não vai mais aparecer. isso já morreu. morre. mas eu insisto, eu fico. eu poderia não viver. e se eu vou ficar, que seja da maneira mais coerente com o que eu acredito. eu me pego nesse raciocínio que é, agora, depois dos 40 eu não vou abrir mais concessões que firam este quarto primordial. não vou mais agradar aos outros. e também vou amar muito aos outro. ao mesmo tempo em que a opção é minha e eu estou coerente comigo mesma, eu posso conversar com uma pessoa que pensa totalmente diferente de mim e que está fazendo a mesma opção, que é continuar vivo. ela deve estar fazendo o que acredita. (é tão bonito, as pequenas mortes). é uma opção. esse meu irmão que eu perdi se matou. ele era o mais novo, eu sou a mais velha. 11 anos de diferença. e nós brincamos a vida inteira - mais ele comigo do que eu com ele - que nós éramos as pontas. e eu adorava isso. pensar que eu estou na ponta daqui e ele está na ponta de lá. e quando ele se matou nos foi dito isso, para os irmãos, meu pai falou: ninguém é culpado. isso é o livre arbítrio. é bonito isso. é uma opção. e nós temos que respeitar a opção do outro. aquilo para mim foi demais, foi tão libertador. se ele está respeitando e entendendo - por maior que seja a dor dele - que um dos filhos fez essa opção ele também pode respeitar e entender uma opção que eu possa fazer de continuar viva e ao mesmo tempo não comungar mais com nada que me fira. depois dos 40. inclusive me libertei um pouco desse pai. está mais saudável agora. não tenho mais culpa de não visitar, e quando visito estou visitando, e amo do meu jeito. de alguma maneira a virada dos 40 é entender o suicídio para a vida. eu vou viver. eu vou viver. fiz essa opção. eu vou viver. e também, uma hora vai acabar. é maluco porque eu sou mãe e mãe tem muita culpa. e o mais difícil foi eu começar a exercitar uma não culpa com os meus filhos. não tem um jeito de criar, politicamente correto. uma coisa bem do nosso tempo. mil regras para se criar hoje em dia uma criança. politicamente correta. e eu estou adorando ser quem sou na frente deles. (filho não pode morrer antes dos pais. mas ás vezes acontece). e eu achei bem impressionante ver meu pai vivendo. depois que o filho morreu. e vivendo bem. com dor. mas se aprender a carregar. a gente se adapta. (ó: essa é a morte, né?)
(e eu olho para onde? para lá!) (por isso que eu estava te falando do Andy Warhol: ele não deixa a pessoa tirar o olho da câmera! E ele faz esses testes assim com o Bob Dylan...) meu olho ainda está um menor que o outro? (então tem isso aqui ó: agora eu ajeitei minha coluna. Eu estava assim: sentada velha). (será?) Acho que eu não aprendi nada. Acho que já estava tudo em mim. Não se aprende nada. Imagina, quando eu entrei na escola de arte dramática meu pai falou: mas o que você quer aprender não se aprende na escola! E não se aprende mesmo. Se aprende com os outros. Nesse momento agora eu estou tentando entender que existe uma trajetória até aqui. E em algum momento eu peguei um atalho ou um caminho mais longo e agora estou voltando para o caminho em que eu estava. E o teatro... saiu a importância dele. Veio uma outra importância que, inclusive essa minha amiga que estava aqui antes de você chegar é iluminadora da compania livre, e ela fundou a compania junto, ela entrou antes de mim até. E eu comecei a abrir as gavetas e a construir uma coisa que eu estou chamando de caderno sobre caderno. Então eu encadernei, por exemplo, fotos velhas. Aí você encaderna como se fosse uma tese, porque tem algumas papelarias, principalmente no centro de são paulo que fazem isso, que são encadernações para tese e se você quiser eles ainda gravam uma coisa dourada na capa, tem várias cores. E aí eu comecei a pegar tudo o que era papel meu antigo, foto antiga, caderno antigo e encapar com essa encadernação de tese. Para riscar por cima, sabe? E eu peguei agora um álbum de fotos da compania livre e encadernei. E a idéia é rabiscar em cima, colar, cortar, queimar, e o caderno é um caderno sobre um passado, sobre uma coisa que já foi. E que faz parte do caminho, que eu não me arrependo, mas que eu quero rabiscar por cima, entendeu? E aí o andy warhol vem em uma que é... eu estava lendo um livro que ele mesmo escreveu chamado... popismo ou coisa assim, e ele conta que um dos caras que ajudaram ele a virar um artista plástico falava assim: olha, é melhor você pegar as coisas anteriores que vocês fazia e destruir e mostrar as novas. Faz por cima. E eu fiquei com isso na cabeça. E me deu vontade de pegar todos os texto que eu estudei, guardei e usei para decorar, ensaiar, bababá e riscar todos por cima. Então não é um arrependimento, mas é uma coragem de continuidade. De um trabalho que eu comecei há muitos anos atrás. E eu acho que em algum momento – e isso é terrível de dizer – eu acho que eu quis um aplauso imediato, como se isso fosse importante, uma certeza maior, bem jovem e adolescente, quase de que eu estou aqui, que eu faço parte, sabe? E o teatro é mais imediato, né? Ele é uma coisa que ele te coloca ali no momento presente e você tem a resposta imediata. E a criação dele eu acho muito legal, o coletivo e tal. Mas talvez não seja a minha natureza mesmo essa, a minha seja mais a do arqueólogo, pecinha por pecinha, ficar olhando um acoisa um tempão em casa, e uma coisa leva à outra, talvez o processo que eu mais goste não seja o do fazer teatral. Então, não é nem uma mágoa. Agora estou falando mal de teatro e da carreira que eu fiz até porque eu estou mudando ela. Eu não vou abandonar ela, mas vou mudar. Mudar de perspectiva. (é! Mas pra mim mais FOI. Não é mais. Não é mais MESMO). E isso é uma perda também, sabe? É o que eu estava falando da perda de ambição, tanto é que eu esotu gostando mais de ensaiar as coisas do que de apresentar as coisas, eu queria apresentar logo, eu queria aparecer logo. Acho que o aplauso era muito importante, eu me lembro que eu queria ser alguém. E os cadernos mais antigos ainda têm essa ambição de, num primeiro momento tem até uma ambição de ser imortal, sabe? De ler tudo o que... eu acho que... eu acho que eu achava que eu iria ler tudo. Eu comecei a ler o guerra e paz falando assim, eu tenho que ler esse livro, eu tenho que... eu fichava as coisas, e eu estou achando os fichamentos nas gavetas, as obras de gaveta, eu tenho uma pasta agora no computador chamada enca... encadernacções. Não. é. Não era encadernacções era... estudiações. Alguma coisa assim. Acções. Mas eu estou pegando uns fichamentos muito antigos e reescrevendo eles. Eu era muito caxiassabe, eu achava que eu ia... eu não sei o que eu achava, mas tinha uma ambição de pertencer, de deixar legado, que não existe. E aí parece que agora eu estou vendo que não existe. Me dá vontade de ficar muito num estado que eu gosto, que me é necessário, dentro de casa. E, talvez hoje em dia, se você me perguntar o que é esse estado, eu responderia que é fazer caderno. E isso pode ser uma doença, né? Pode ser patológico isso que está me acontecendo. As vezes eu acho que estou há um passo de não sair mais de casa. Eu não consigo achar isso um ponto negativo hoje em dia. Eu acho que é um ponto salutar, necessário, fechar todas as portas e viver uma espécie de brincadeira de criança infantil eterna. Uma coisa leva à outra, uma coisa leva à outra. Só que eu não estou no mesmo estágio de quando eu tinha 20 anos, eu acumulei coisas. Parece que tem uma mapa geográfico de pistas de quem eu fui e das coisas que eu fiz e elas são concretas. Elas são papel, caderno. E me dá vontade de realinhavar tudo isso e riscar por cima. E eu estou achando isso lindo. Eu tenho um prazer nisso, eu gosto de chegar em casa e ficar em casa. Hoje eu acordei as 5 da manhã e não conseguia mais dormir. Aí eu vim para a sala e fiquei projetando um pouco os cadernos. Eu fico olhan do para eles. Para tentar entender a dramaturgia deles. Enfim, uma coisa muito pessoal. Depois veio uma amiga minha aqui, que é essa iluminadora, para a gente combinar um workshop que a gente vai dar, e foi ótimo. Depois você chegou. E eu não saí de casa hoje . E pra mim isso é uma utopia, um sonho. Trabalhar ininterruptamente, acordar muito cedo e trabalhar até a hora em que eu aguentar e não sair de casa, ter contato com muita gente, colaborar com muita gente e ao mesmo tempo ter um tempo sem obrigação para fazer uma arqueologia pessoal. Talvez seja isso. Tanto é que eu fiquei doida com o você falou, que tem uma pessoa que estuda um pedacinho de uma microestrutura que pode ter 5 mil anos. é um pouco isso. Mas junto com uma paixão de papelaria, e por papelaria, e por uma matéria que é vendida em papelaria, acho que as duas coisas fizeram essa patologia de uma pessoa com fobia que não quer sair de casa. (12 / 12. que bom que você avisou. Eu tinha... sumiu. Meu cigarro. NOVO. Acabou. Na bolsa. Não, já era. Eu sei que ele está aqui em algum lugar e ele vai aparecer. Eles são assim, os cigarros). Em relação à. Porque de uns tempos para cá eu venho me afastando das pessoas, não vou muito nos lugares – porque eu não quero mesmo. Então, alguém que veja de fora pode achar que eu estou fóbica, que eu mudei alguma coisa, mas isso não me importa mais. Mais eu pensei nisso. (não). Não mas assim, eu tenho medo de ficar... como é que eu vou sobreviver? Preciso ter um certo conforto em casa? Não porque eu acho que os loucos hoje em dia são bem negados mas... disso eu não tenho muito medo. Isso é uma questão. Mas é uma coisa de eu parar de trabalhar. Se eu parar de trabalhar a vida não vai ser tão boa. Eu tento me dividir em 2 lados, um lado que é o meu ofício e um lado... por isso eu digo que é uma utopia, porque eu ainda tenho que sair pra trabalhar, eu ainda tenho que criar as duas crianças, nos momentos em que eu estou aqui eu estou conquistando um espaço meu. E acho que isso é lento. Você vai conquistando, não pego dois trabalhos ao mesmo tempo, agora eu pego um só. Eu tinha uma agente, agora não tenho mais. Imagina: eu tinha uma agente!? E vou me distanciando de um suposto mercado, e aí não vou mais ser chamada e tal. E isso pode acarretar num isolamento mesmo, mas e o preço, talvez. Isso ás vezes me dá um pouco de medo, mas depois eu me esqueço. De eu fazer uma opção muito radical que é essa. A de eu fazer da minha casa um lugar que é para onde eu estar, e nunca mais sair. é meio louco mesmo. (mais subjetivo?) para mim é a realização total. (E engraçado, agora eu...) pra quê, né? E agora me veio uma coisa que é: para quê pensar nisso? Não só simplesmente viver, sabe? E por um instante eu pensei que eu sou tão cartesiana, e isso pode também ser uma coisa patológica, que eu tenho que programar a vida, tenho que ter objetividade, sabe? Então, eu vou me dar um tempo pra ir... isso pode ser muito nocivo mas pode ser muito legal: um planejamento. Planejamento de vida. As coisas não estão mais indo assim ao Deus dará. é até bom: estão. Porque eu estou mais aberta para o acaso. O meu planejamento é não planejar, é me deixar levar muito mais. Me deixar levar muito mais é começar um dia sem ter que. Mas estar em. Estar em casa. Que eu quero chamar de casa-atelier. Eu não sou uma artista plástica, eu não sou uma escritora, eu não sou uma musicista, mas eu brinco dessas coisas. E brinco com o material, o objeto, a papelaria. Gosto de brincar de secretária. Isso me dá prazer. E pra quê ter que planejar tanto? Porque eu tenho que planejar tanto? E pensar: agora eu vou dar um rumo “assim” na minha vida; eu vou parar de fazer teatro, eu vou parar de não sei o que, eu acho que é necessário sim, não é “para quê”; é necessário. O mínimo de planejamento. O mínimo de consciência para se ter coerência. Num caminho, numa dramaturgia da vida mesmo. é um pouco isso o que eu estava falando do Andy Warhol, eu acho que depois do tiro que ele levou alguma coisa mudou, sabe? E mudou mesmo. O tema dele mudou, quando ele faz a série dos acidentes, a série dos suiícios, ele mesmo vira uma obra de arte, sempre foi, ele é todo construído por ele mesmo, mas ele vira... aquelas cicatrizes, o jeito que ele mostra aquilo, acho tão bonito. E acho que eu estou mais nessa do atelier, o ofício do ator é muito burocrático. A sala de ensaio é linda, mas a sala de ensaio hoje em dia está com hora para acabar, com hora pra começar, com as pessoas fazendo muitas coisas, hora da estréia, parece sempre que tem uma pressão, uma coisa, e o produto, tudo bem, mas o atelier, o tempo de, acho que é isso, a realização, o deixar o tempo decantar. As coisas acontecem em um outro ritmo. Mais processual, talvez. Eu comecei a fazer teatro porque tinha isso. A compania livre tinha isso. Eram processos que duravam um ano. Puxa, durava um ano, um ano e meio. Ainda dá para trabalhar assim, mas o modo de produção corta uma ternura muito preciosa para o trabalho criativo. E aí quando eu estou em casa sozinha, quando me junto com uma pessoa ou duas, quando eu vou para a menor grandeza, como diria o Brecht, quando eu vou para a menor grandeza eu me sinto mais plena, mais feliz, no pequenininho. Eu osto de ter compromisso, mas depende dos compromissos também. (meu penso em performance e os cadernos são as performances). E ao mesmo tempo rever as gavetas é um pouco resgatar um trabalho que sempre foi performático. Por isso eu penso que o atelier não dispensa o meu trabalho como atriz mas eu – é horrível isso o que eu vou dizer mas acho que eu – quero ser atriz para mim mesma. Eu acho que me falta uma autoria. E eu estou roubando isso de um amigo que me disse que parecia que me faltava autoria. Autoria de escrita mesmo. A escrita pode ser feita de várias maneiras. Hoje em dia eu penso que o teatro é – depois eu me lembrei que a Marguerite Duras já tinha dito isso de uma maneira linda que é, para ela o teatro é quando você tem o ator e a palavra, só. Você só precisa do ator e da palavra – é a palavra que vem antes. Acho que estou indo um pouco para esse caminho. O texto vem antes, a palavra vem antes, o caderno vem antes, o que é escrito no ar da cena vem antes. Falar como eu estou falando agora é uma maneira de escrever. E é lógico que se me falam hoje que eu vou falar a Amanda Windfield naquela peça Glass Manager (?) e do Tenesse Williams, eu conheço a personagem, eu acho que dá para escrever nas entrelinhas dela, dá para eu me colocar no lugar dela, dá para eu me emprestar para ela, do mesmo que me empresto para a obra do Tchecov. E escrevo ali onde me é dado, no efêmero, na hora. Isso é uma escrita. Eu até tenho o domínio dela. Quando eu estou em cena as vezes eu percebo que eu tenho um domínio de equilíbrio, um equilíbrio quase arquitetônico. é o equilíbrio do quadro. Eu, em cena, e agora está sendo muito legal porque a gente faz sessão dupla da peça que estou fazendo, o Moscou, e na segunda sessão eu já estou mais cansada, mais relaxada, mais porosa. E eu percebo que eu estou em cena, (é um filme e uma peça ao mesmo tempo), eu sei onde está a câmera, eu sei o que vem depois, eu sei qual é a relação com as duas outras irmãs, Irina e Maria, é como se eu estivesse tocando um instrumento, com vários dedos, e dá pra dominar isso como se fosse uma grande marionete. Como se eu estivesse realmente tocando um instrumento. E isso também é uma escrita e também dá para escrever nas entrelinhas, que é a tua emoção vir compor com esse instrumento múltiplo e você de alguma maneira falar aquela fala de um jeito que toque o mais fundo o coração de alguém porque você está com total noção de espacialidade. Isso é muito bonito. Mas eu não aprendi isso na escola. Isso não dá para ensinar para ninguém. E eu acho que isso que eu vivo, em cena, é uma coisa que o escritor vive, ele tem o domínio do papel presente onde ele está escrevendo, da situação presente, de onde vai, quer dizer, tem um processo cartesiano de construção e composição que você vai dominando. Como tocar um piano, você vai dominando as escalas, você vai dominando a feitura da música e as notas concretas e você vai trabalhando com isso e ainda vem um Glenn Gould põe uma emoção nisso porque ele tem o total domínio dessa técnica aqui. Estar em cena para mim hoje é muito bom porque eu tenho esse domínio e eu brinco disso. Mas tudo o que tem em volta, quer dizer, até o terceiro sinal tocar, não tem sido bom. Porque eu preciso mais desse atelier. Esse atelier pode me trazer também essa realização que é esse tocar um instrumento muito sutil como se fosse um... isso não tem a menor importância. (eu acho que o ator é um performer, porque eu estou vivenciando aqui. Acho que a primeira camada que tem é a da vivência, e aí vem uma técnica que o performer também tem). (aí vem aquilo; eu posso fazer a Olga e performar nas entrelinhas da Olga. Eu estou sempre performando. Estou trabalhando com a Cristiane Jatahy também porque o conceito está presente, esse conceito está presente. Tanto é que ela fala de performance invisível, que é tirar a teatralidade toda. Isso aqui pra mim é uma performance invisível. Se a getne fosse usar a cristiane jatahy como norte. Acho que o lugar da criação do performer e do ator é o mesmo. Outro dia eu ouvi aquela Eleonora Fabião falando que ela não acredita na palavra Performance. é uma artista que eu gosto muito. Ela acredita na palavra Ação. E acho que tudo é essa ação. Mas talvez tenha uma coisa de eu estou querendo me distanciar – talvez, tudo pode ser de um jeito completamente diferente, isso é só um ponto de vista – mas talvez a criação do personagem, um pesronagem que tem um circuito, uma curva dramática, e que você repete essa curva dramática, escreve nas entrelinhas dela e performa nela, pra mim isso está sendo um pouco rococó demais. quando você fala que eu não pensei na performance; eu penso na performance, mas não tem nem esse nome. Porque talvez a performance seja uma performance num caderno, a feitura de um caderno. Talvez a performance seja uma atuação contínua da minha vida mesmo. Eu estou encadernando tudo o que eu vivi e tentando fazer com que isso tenha uma lógica de construção... sei lá do quê... artística! Isso é performar. É como se eu tivesse feito, por exemplo: só fiz Um Bonde Chamado Desejo, em 2002, com a Cibele Forjaz, que a gente ficou em cartaz durante um ano, eu só fiz essa peça, para hoje, quase 20 anos depois eu ter esse material, que sou eu muito mais nova fazendo a Estela, irmã da Blanche Dubois, em Um Bonde Chamado Desejo, do Tenessee Williams. E isso vai entrar em um caderno onde eu pego essa matéria da vida que eu vivi e risco por cima, transformo em outra coisa, transformo em um caderno – eu acabei de fazer isso. Toda a vida que eu vivi na compania livre em fotografias eu transformei num caderno para rabiscar por cima. Essas fotos não vão se perder, mas elas perder esse sentido de “esta é a minha história” sabe? Foda-se a minha história. Parece uma loucura o que eu estou falando, mas para mim tem total lógica. Foda-se a história, a história não existe, ela é o presente aqui e agora, ela é o risco que eu faço em cima deste caderno. Eu fiz agora que eu amo que eu fiz... com 16 anos eu já tinha essa vontade do caderno, e gostava do caderno manual. Durante o segundo e o terceiro colegial eu fiz vários poemas que eu amava. Eu tinha um jeito totalmente parnasiano de escrever, o meu professor de redação me alertou sobre isso, sem me cortar as asas mas falou: você é parnasiana, eu gostava das palavras difíceis, eu lia dicionário e eu achava os meus poemas geniais. E pensei: ninguém nunca vai me publicar, porque eu queria tudo aqui e agora, eu tinha 16 anos – isso foi em 91, no século passado – e aí eu resolvi fazer o livro eu mesma. Eu levei isso muito a sério. Muito mesmo. Eu fiz todo um boneco do livro, quais seriam os cadernos, quais seriam os poemas, editei os poemas, coloquei eles todos na ordem, foi uma trabalheira. Aí eu escrevi o livro todo à mão, com uma pena. só que eu fiz um boneco antes então eu fiz o boneco e depois eu fiz O Livro. E eu lembro de eu terminar o livro e ficar muito orgulhosa e pensar: eu vou publicar isso. Eu deixei aquilo em uma gaveta até um mês atrás, e descobri isso. O que eu fiz: peguei o boneco e encadernei o boneco como se fosse uma tese. Então ficou um caderninho assim. E eu já comecei a riscar ele por cima. E os poemas são muito ruins. Uma coisa completamente nonsense. Não dá pra entender o que eu escrevo, é um horror. E eu achava aquilo muito bom. Então eu tenho dois caderninhos: um que é o boneco e outro que é o livro mesmo que eu encapei da mesma maneira. E eu passo horas aqui falando o que que eu vou riscar aqui por cima, o que eu vou deixar desses poemas? É como se eu estivese brincando com aquela que eu fui. Quando eu percebi isso eu me lembrei imediatamente do Opening Night do Cassavetes que não era o filme que eu mais gostava do Cassavetes, todo mundo tem um filme que gosta mais, mas agora eu acho que é porque é tão incrível porque eu me dei conta que é uma atriz de 50 e tantos anos e ela é assombrada por aquela adolescente e tem uma coisa da idade, de uma consciência da idade, consciência do que se viveu. Eu acho isso tão impressionante no filme. E o jeito que ela vai ficando louca, e se debatendo. Resolver a adolescente que foi. Eu acho que eu estou resolvendo agora a adolescente que eu fui. Com muita vontade, com muito desejo. E agora um pouco mais calma me dá vontade de ficar naquele lugar de descoberta, de desafio, de “vou fazer um livro”. Vou sentar e vou fazer um livro. E isso eu fazia dentro de um quarto que era um décimo desse espaço. Eu habitava um quarto muito pequeno, e estava tudo à minha disposição, um micro atelier. Na casa da minha mãe lá na avenida paulista. Eu estou prezando muito isso tudo e também prezando muito tudo o que aconteceu, mas como se eu tivesse me distanciado de mim e virasse matéria de criação para mim mesma. Isso é performance. Só que no meu caso não é performance, é escrita. Talvez eu não tenha o dom de escrever parece que quem escreve – eu escrevo todo dia, mas parece que quem escreve – é uma coisa bem maluca: eu escrevo todo dia, é esparso e é um pouco mais gráfico. A palavra, nem a palavra, ela existe, tem textos. Tem um monte de gavetas. Mas são coisas que eu estou o tempo inteiro transformando. Engraçado, agora eu lembrei do Paul Valérie que ficava fazendo um poema durante anos. E só terminava o poema quando o editor arrancava o poema da mão dele e falava “agora eu vou publicar isso aqui”. Cemitério Marinho acho que foi assim. Senão ele não pararia nunca de fazer aquilo. E ao mesmo tempo, aos 40 e quase 3 anos eu percebo sim que a gente vai se distanciando desse quarto primordial, dessa vontade inerente à qualquer coisa. Essa vontade inerente, na verdade. De ação. Que pode ser pública, pode ser pra você mesmo, pode ser fazer um pão, ela pode ser pegar uma rede e fugir pro mato. Talvez eu morra cedo porque parece que a essência de todo mundo, isso é que é perder a ambição também; é ver que não adianta eu ler tudo e fazer e produzir, não adianta, nós temos esse mesmo princípio: o arqueólogo trabalhando ali, ou uma bordadeira, eles devem sentir essa mesma coisa, essa ação que e estou falando. E é muito comum você se distanciar disso e o trabalho virar uma fricção, uma obrigação. O sistema entrando na tua vida e acabando com você. O sistema mata. Você tem que pagar as contas, você tem que pagar o aluguel, você tem que ter um nome. Você tem que estar bem no facebook. Que pra mim é o auge dessa loucura. E agora eu cometi aquele “facecídio” , que eu cometo e descometo – acho lindo isso de você se matar e voltar. E toda vez que você vai sair do facebook você põe “cancelar a conta” e aparece assim: “fulano vai sentir falta de você”, “cicrano vai sentir falta de você”, e aparecem pessoas próximas. O facebook com a inteligência dele sabe que, parece que isso que o Andy Warhol tocou, da fama, e que eu acho que ele era cínico, muito inteligente, muito cínico. Por isso que o meu preconceito acab... eu acho que ele era um grande manipulador de um momento histórico. E ele usou isso para fazer arte. Eu acho que a arte está também nele. No corpo dele. Ele é um performer. Talvez um grande performer. Eu estou adorando ele. Adorando ler os diários dele também. É nada, é fútil. Isso é escrita, papel, silk. Mecânica. Repetição. Trabalho manual. Tempo. Novos modos de produção – que ali na Fábrica era um meio de produção, as pessoas trabalhavam o dia inteiro. Hoje em dia, o coworking, eu acredito nos atelies. Nas imersões. E não precisa trabalhar sempre com a mesma pessoa: trabalha um pouco ali, um pouco aqui, um pouco acolá. A gente sempre acaba falando de trabalho. Sou eu, não é? Eu não paro de pensar. E a questão da loucura é uma loucura também. Eu não gosto quando falam que eu sou louca, sabe? Porque eu não sou. Mas se ser louca é isso, então eu sou. Mas aí tem o Machado de Assim, o Tchecov, que já falaram sobre isso. Lima Barreto. O Torquato Neto. (isso aqui já é, né? O jeito com que a gente se coloca no espaço). A Eleonora Fabião tem uma coisa tão interessante nesse último trabalho dela que se chama Converso Sobre Qualquer Coisa. Se não me engano essas são as Ações Cariocas. É impressionante. Ela fez um livro que é o Livro das Ações. É um livro que não pode ser vendido. Ele só pode ser doado, dado de presente, esquecido. É um livro lindo, amarelo, que eu estou louca para achar algum dia, porque não tem pra vender. E é o livro das ações. E em uma dessas ações ela pega um pôster e vai para a praça no meio do Rio de Janeiro, no Largo da Carioca, e ela escreve ali na hora: “converso sobre qualquer coisa”. E são duas cadeiras. Já se estabelece um espaço ali. E não é uma performance, é uma ação. E ela fica indo nesses lugares com a sacolinha dela, com os baquinhos dela cada um em um lado, conversa sobre qualquer coisa e a pessoa chega e fala: - quibe. E ela fala: - quibe, farinha. Farinha para quibe. Tem a yoki tem a não sei o quê. E tudo é interessante. É isso o que eu estava falando, da perda da ambição, porque tudo é muito interessante. Como meu pai estava certo que arte não se aprende na escola, porque arte não se aprende, ela já nasce com você. E é você e é todo mundo. É muito estranho você ter um prêmio de melhor “tãnãnã”. Olha o sistema como sistematizou uma coisa da natureza do homem que é a realização, a criação. O que for. Até hoje, estamos vivendo o começo da queda do grande império da televisão brasileira, mas é impressionante como tem uma aura em cima do ator de televisão. Você sabe que isso é muito grave? Uma pessoa olhar para outra como se fosse um Deus. E automaticamente essa pessoa já é inferior porque a outra é artista, e a palavra “artista”, quando alguém de produção diz “o artista tem que chegar” eu penso: “que horror! Não fala essa palavra!” Não existe essa diferenciação. E olha que coisa: eu estou estudando agora o caso do O.J Simpson. Que é impressionante, o que foi aquilo? Aquele cara, doido, ele tinha uma violência, enfim, ele tinha um selvagerismo dentro dele, ele bati naquela Nicole, naquela mulher; e pega uma faca e estraçalha ela. Estraçalha, ele quase degolou ela de tanta facada que deu. O chão da casa ficou inteiro de sangue. Tinha ido um amigo dela devolver um óculos, que a nicole esqueceu no restaurante e ele também foi esfaqueadíssimo pelo O. J. Simpson. Foi o O. J. Simpson. Então foi o O. J. Simpson. Porque tinha sangue de todo mundo no carro dele, ele estava com o dedo machucado, ele esqueceu uma luva não sei onde. E se você estuda o julgamento do O. J. Simpson, que não à toa parou a mídia, é um absurdo. É um absurdo o que acontece, as provas concretas estão lá. Eu vi as coisas do tribunal, eu li o livro do Bugliose, está tudo lá. Mas ele seria o equivalente ao nosso Pelé. Então é o fascismo, porque uma pessoa que matou brutalmente outra, em um crime passional, e depois ele continuou solto – agora ele está preso, acho que ele assaltou à mão armada um monte de lugares – ele é louco. Um doido. Mas isso é um pequeno exemplo dessa fama. A gente vive um pós Andy Warhol, a gente vive o estrago que o Andy Warhol ajudou a fazer. Mas não foi ele. A gente vive o excesso disso, a decadência disso. Eu tenho ojeriza. Eu acho o facebook o excesso porque é todo mundo sendo famoso, todo mundo fazendo a sua – é horrível perder tempo falando disso – a sua coluna social. E até hoje, do mesmo jeito que você é rico se você compra um carro, você é bem sucedido se você é famoso. E isso corrompe esse quarto primordial. E aí talvez eu tenha dado um passo estranho porque o teatro tem esse mercado imediatamente. Uma amiga muito próxima, que me conhece muito bem me falou “como é que você ainda não esntrou no mercado de vídeo?”. E eu não entrei, e eu não vou entrar. Não me interessa eu ir fazer um teste e uma pessoa gostar ou não de mim, e eu querer ser amada, querer ser aceita. Porque se eu sou aceita eu já acho que tem alguma coisa de especial em mim, e aí entendo o processo do cara, não faz muito sentido. A não ser que a gente converse e crie juntos e fale sobre a vida. Isso pode acontecer, mas não é o que acontece. Em 80% dos casos. Eu acho que a gente vai morrendo, e eu acho que, se a vida é uma só mesmo eu não estou afim. Prefiro voltar para o quarto dos meus 16 anos e rabiscar em cima das coisas que eu já rabiscava antes. E a única questão agora é que lá vem o sistema de novo. E como é que eu posso realmente – é DISSO que eu estou falando – como é que eu posso realmente ser livre? Existe a liberdade mesmo? Ou só eu conhecendo todas as amarras e controlando todas elas com maestria eu posso chegar nuim estado que seja equivalente à liberdade? Porque se eu penso “vou ficar em casa esse ano inteiro” quem vai pagar? De novo, é o sistema, ele bate na minha porta imediatamente. Você faz uma opção e ele bate na tua porta. Toca o teu telefone. Olha, o telefone já é entrar no sistema. Eu não quero sair do sistema, eu adoro a cidade. Adoro São Paulo, eu sou daqui. Eu adoro esses prédios, adoro essa poluição, adoro o minhocão, adoro quando você está ali no elevado Costa e Silva e você está vendo a torre do bradesco e você dá uma viradinha e vê o Copan, acho aquilo lindo. Quando você está indo pro Bexiga que você vê todos aqueles prédios que você vê dos viadutos, a Liberdade. Eu acho lindo. Então não é sair, é como dominar isso aqui. Como minhas contas podem estar pagas, como eu posso estar fazendo meu ofício ali, por isso que eu tenho que pensar nisso o tempo inteiro. É uma obra de arte a minha vida. É uma obra. Porque eu tenho que pensar. “então tá, vou ganhar ali, vou ganhar aqui, vou fazer uma planilha para espeficicar tudo isso, vou fazer o trabalho que eu sei fazer porque eu tenho a técnica de fazer ele, vou fazer conforme o que é esperado de mim, só que agora eu quero ter pelo menos meio período no meu atelier. E eu estava dando o meu dia inteiro para os outros. Autoria talvez seja um pouco isso. E é um movimento. É no que eu mais penso hoje em dia. E eu estou adorando pensar nisso. Não é uma crise. E não é uma loucura. Talvez seja o começo do estado de lucidez da velhice. Que eu acho que ele existe. O auge do estado de lucidez da velhice é o estado em que está a minha avó, Jacy – lua em tupi guarany. Ela tem alzheimer e eu acho ela uma pessoa muito lúcida. Porque ela só está ali. Eu considero, na minha cosmogonia pessoal, estou com o Dante. Se você pega a expectativa de vida hoje em dia que deve ser de 80 anos e a expectativa de vida da época do Dante era no máximo 40, 60, e acho que ele escreve a divina comédia com uns 30 e poucos, ele está na metade do caminho. A metade do caminho é a grande virada. Eu acredito na virada. E agora não é a velhice ainda. Mas eu estou gostando de estar a caminho de alguma coisa agora, concreta e real. De a morte estar mais presente e dos meus cabelos ficarem brancos. Parece que eu mudei de pele. E tudo está mudando. A vaidade muda. A segurança muda. Eu acho que tudo pra melhor. Eu acredito que eu quero tanto que isso dê certo que mesmo se eu tiver artrite, rinite, tudo o que vai vindo com a velhice, eu acho que vou saber usar isso para alguma coisa boa, eu estou gostando. Não é pular etapas, é estar nessa etapa, que é o começo da decadência. Agora, o que é decadência? Porque, se eu sou da cosmogonia do Dante, ele está descendo para subir. Eu li há muito tempo atrás, mas quando ele chega no 9º círculo, que é o rio congelado e é o rio onde Lúcufer caiu, então Lúcifer caiu e fez um buraco na terra e o que saiu do buraco na terra era o purgatório. Eu sei que eles chegam, o Dante e o Virgílio chegam no rabo – assim ficou na minha cabeça – do Lúcifer, e eles dão um giro na cauda e já estão no purgatório. E eu falei: então eles estavam... subindo? Eles não estavam descendo, estavam subindo? Então deser aos infernos pode ser uma coisa... a decadência pode não ser uma decadência; é um outro tempo que se estabelece. E eu estou gostando de ser um tempo atonal. (estou falando de aqui e agora. Se isso é transcendência... mas não tem nada espiritual nesse raciocício). Eu acho que isso não acaba nunca. Isso é você ver a obra do pintor inteira. Lembrei da obra daquele cara, Ianelli. Ianelli também é um cara que eu tenho que pesquisar, porque acho que ele também deu um tiro na mulher. E eu estou com essa obsessão de alvos. Alvos, tiros, os presidentes alvejados, o Andy Warhol alvejado. John Lennon alvejado. Mas eu estava falando do quê? Que não acaba nunca. Eu me lembrei do Ianelli. Eu fui em uma exposição do Ianelli uma vez e foi a primeira vez que eu vi como ele partia do figurativo para aquelas linhas vaporosas que ele fazia, aquela coisa mais com a cor, com o peso da tinta, da tela. Era uma vida inteira. E ele não parou de se questionar. Esse é o movimento, a ação. É o jogo. Então; que jogo eu estou jogando? Que jogo a vida está jogando comigo? É isso o que eu estou chamando de um total controle. E cada momento é um momento. Eu estou em um momento agora que é tão legal porque eu estou com uma questão moral na cabeça. Esse negócio do O. J. Simpson e também de um tipo de raciocínio do Vincent Bugliosi que foi o promotor que condenou o Charles Manson que estudou a funda a filosofia do Charles Manson e que eu acho que é uma filosofia tenebrosa, é uma cosmogonia tenebrosa, um raciocínio tenebroso, psicopata, esse cara é um psicopata. Só que ele está saindo do sistema presidiário então ele foi criado pelo sistema. Com 9 anos ele já foi preso. Então ele foi educado dentro da prisão ele saía e em seguida ele voltava porque ele já era preso de novo e aos 37 anos mais ou menos ele sai da prisão por um período mais longo e se depara com o movimento hippie. E o movimento hippie, segundo meu pai, hippie até hoje, foi o último sopro de esperança da humanidade. Estou citando meu pai. Eu fico pensando que o Manson sai da prisão e ele vê um movimento de paz e amor – que realmente aconteceu – ingênuo, mas aconteceu. Ali aconteceu alguma coisa em 68, 69 que pra mim tem o mesmo peso de 1789. E eu fico muito louca com isso, que o Manson pega um pensamento e uma filosofia totalmente pacífica da música e do lisérgico e transforma isso numa filosofia que faz com que as pessoas que se juntam naquela comunidade – a grande família dele queiram matar uns aos outros. Que é uma questão moral que também foi o caso do Jim Jones. O cara que faz uma igreja no meio da Guiana Francesa, com a maioria da população negra, todo mundo vindo da Califórnia – sempre na Califórnia que acontece a merda – Manson é na Califórnia, O. J. Simpson é na Califórnia, e o Jim Jones faz 900 pessoas se matarem com cicuta. Falando que isso era um ato religioso. Eu acho isso um absurdo. Essa lógica do O. J, é uma inversão da moral, a gente pode ser manipulado, é o nazismo. Quem estava lá? O nazismo não foi só o exército do Hitler, tinha gente morando na Alemanha. Tinha gente que não sabia o que estava acontecendo. É a história do Eichmann, que eu também sou obcecada pela história do Eichmann. E o Eichmann na defesa dele fala que ele só era um bom funcionário. Um bom funcionário dentro de um sistema que estava com a moral invertida. Um sistema selvagem. A gente é selvagem. Eu fiquei estudando um tempo a Camile Paglia também. E a sociedade vem para nos organizar um pouco, para nos apolinizar um pouco. Mas eu estou muito encantada com esses discursos de pólo invertido. O discurso do Manson é de pólo invertido e ele fala que ele é um produto do sistema carcerário, ele foi criado pelo sistema. Ele é aquele que ninguém quis. Ele reage ao jeito que ele foi criado. E ele é filho do sistema, ele fala isso na defesa dele. O Eichmann fala na defesa dele que ele não assassinou milhões de judeus; ele era um bom profissional, um bom funcionário. Ele cuidava da linha férrea na Alemanha na época da guerra. Transportando judeus pra lá e pra cá. Ele sabia o que estava acontecendo. E também ontem eu fiquei muitas horas ouvindo um cara chamado Sirham Sirham, ele tem esse nome duplo, ele é um árabe que morava nos EUA e foi quem deu o tiro no Bob Kennedy. E ele, no meio da prisão, fala que as pessoas tinham que agradecer a ele. E aí ele faz toda uma logística de porque ele deu aquele tiro, que tem a ver com a Palestina e Israel, tem a ver com a admiração que ele tinha pelo Bob Kennedy, é muito estranho. O cara que matou John Lennon também, são raciocínios estranhos e que ao mesmo tempo eles estão dentro. Eles são crias do nosso sistema. Eu estou lendo a história do Manson hoje, e vejo que ele não é uma aberração, é como o comunismo que nasce do capitalismo. Não vai mudar o sistema o comunismo. Ele nasce das bases capitalistas. Isso não é uma mudança de paradigma. O mundo é uma grande obra que ainda está vendo os seus jeitos de jogar, mas existem momentos e regiões, como a Alemanha da década de 40, como a Califórnia da década de 60 e 70, e se formos pensar no O. J. Simpson, 90, que fica muito explícito o nosso horror. E não adianta eu falar que eu sou uma pessoa, é a Camile Paglia: está tudo aqui dentro. O Personas Sexuais, se bem me lembro ela começa o livro assim: na ponte de San Francisco, e ela passando de carro pela ponte dirigindo e ela olha aquela puta construção e ela pensa: que bom que a energia - não é sexista, você não pode entender como homem e mulher, gênero – mas ela fala: que bom que a energia masculina existe. A energia apolínea existe. Porque se só tivéssemos a energia feminina, dionisíaca, estaríamos tão desorganizados que estaríamos comendo uns aos outros. Porque nós temos isso. E aí ela vai, no Personas Sexuais inteiro, fazendo essa ponte entre o apolíneo e o dionisíaco. Apolíneo não é o homem. E o Dionisíaco não é a mulher. O apolíneo organiza, é isso o que eu estava falando da obra. Ele organiza, tenta entender, estabelece. Acho que eu sou muito apolínea, por exemplo. Muito louca – louca! Eu não gosto que me chamem de louca. Muito dionisíaca mas apolínea, querendo organizar. Claro que uma coisa sempre nasce da outra. É um mundo, é uma sociedade apolínea. É claro que a gente não vai mudar nada, mas olhar, observar, destacar, rasusar, colar em cima, virar de ponta cabeça, tentar entender é, o movimento. E acho que a gente faz isso o tempo inteiro. E tudo é válido. A nossa forma já existe, ela é essa aqui. Se a gente fica nela durante muitas horas ela já vai virar uma outra coisa que nem a gente sabe.
E uma hora também falar: olha, tudo o que eu estou falando é mentira, a gente está trabalhando nesse roteiro há quatro anos, entende? E é tudo muito programado, e todas as nossas planilhas estão ali, porque a gente fez planilhas para ver para onde a gente vai e de onde a gente vem e a gente entende o que a gente está falando e este discurso está sendo construído com total noção do que está acontecendo. Eu posso fazer isso. Isso é um texto decorado. (Que isso é um texto decorado? Que a gente tem um roteiro trabalhado?) A dúvida. Tem uma coisa tão bonita – agora me abriu meu Mal de Montano. Você sabe o que é mal de montano? É um horror. É patológico também. Está em um livro do – olha aí! Isso é o Mal de Montano. - está no livro do Vilamatas. É uma doença. E é uma doença da digressão. Uma coisa leva à outra. Você abre um negócio e não pára de sair. Mas eu fiquei pensando nessa questão da dúvida sabe, a Dúvida como o auge da obra de arte. Que é uma coisa que o Borges fala – Mal de Montano – o Borges faz um ensaio sobre o Dante. O capítulo 33 do inferno que é a história do Golino e seus filhos esfaimados. A história que o Dante conta é que ele estava já no 9º círculo, no rio congelado e ele está andando com o Virgílio pela margem do rio e ele vê um padre ou arcebispo roendo a cabeça de um cara. Roendo. Ele está comendo o cérebro do cara. O Dante para e pergunta, o que é isso, o que está acontecendo? E o Golino, a pessoa que está tendo o cérebro roído, quer dizer; estão comendo ele, o arcebispo está comendo ele, conta a sua história que é a seguinte: esse arcebispo prendeu o Golino em uma torre. Junto com seus 7 filhos, acho. E depois começou a se chamar torre da fome. Antes de se chamar torre da fome, ele ficou ali preso com seus sete filhos, e todos os dias, acho que duas vezes por dia jogavam umas comidas lá dentro. E teve um dia em que eles ouviram a porta se fechar, estavam lacrando a porta. E a partir desse dia não foi mais oferecido para o Golino e seus sete filhos nem mais comida e nem mais bebida. E eles começaram a morrer de fome. E o Golino começou a sofrer. E eles começaram a morrer mesmo, de inanição. Então que os filhos se reuniram, viraram para o Golino e falaram assim: “Pai, nós viemos da tua carne. Então pega de volta o que já era teu”. Aí tem um verso do Dante, que eu não me lembro qual é, que é assim “ depois, mais do que a fome pode a dor” ou “depois, mais do que a dor pode a fome”, e é um versinho que termina o canto 33 e deixa uma dúvida na gente: o Golino comeu ou não os seus filhos? E o Borges pega esse capítulo e fala, não tem solução. A dúvida. A dúvida é aonde reside a arte. E aí você olha hoje e todo mundo vendo se Capitu traiu ou não o Bentinho. Você acaba como Machado de Assis, você transforma tudo em novela. A gente está transformando tudo em novela. Em plástico. É isso, eu idealizei como eu seria... e fugi de mim. (Mal de Montano é assim: é um personagem do Vilamatas, que eu acho que é ele mesmo, e ele está o tempo inteiro digredindo. Você fala para ele: Faca ou Moeda. E ele: moeda, lembrei do Dostoiévski porque no Crime e Castigo foi a loja de penhores, que a velha morreu... então ele faz digressões sobre digressões e são todas literárias e de referência. É uma pessoa chatíssima a que sofre do Mal de Montano. Mas que uma coisa sempre leva à outra. E literatura tem isso. Literatura é um barato. De tédio a gente nunca vai morrer. Eu percebi que eu não iria conseguir ler tudo. Foi um dia muito estranho na minha vida. Foi uma sessão de análise em que eu me dei conta, de repente, de que não iria dar para ler tudo que eu gostaria. E foi um desapego. E ao mesmo tempo não lembrar de alguns livros que eu li. E ao mesmo tempo os livros serem tão boa compania. Ficar em casa é muito bom. (Eu estou fazendo teses de sobras agora. Não é à toa que eu estou encadernando como teses esses papéis todos). Mas eu acho que só você sabe disso. Tudo. Que pode ser um texto ensaiado ou não. E que eu estou vivendo isso. Porque também tem um lugar meu que é mais da ação. São coisas que eu penso o tempo inteiro masi eu vou na padaria escolho a roupa que vou vestir, entro na internet para pagar as contas, saio para trabalhar. Eu sou um mundo. E o que me enlouquece é a pessoa que passa assim por mim e que só passou. E nesse dia, nesse minuto durante a minha vida inteira também é esse mundo. Isso é muito legal de se pensar. Não acaba, não acaba, não acaba. Só que há esse perigo. Esse perigo de a gente realmente se perder. Você escolher uma profissão errada não é você se perder. As pessoas mudam de vida assim. Mas você ser manipulado por falta de discernimento ou de distanciamento histórico, você participar de uma coisa que estão te usando para outra, isso para mim é a morte. O cara que descobre uma coisa da física impressionante e aquilo o que ele descobriu é usado para fabricar a bomba atômica. Ou o cara que está contribuindo com a sociedade e a sociedade é totalmente nociva e selvagem. Isso eu acho um risco horrível. Eu acho que estamos vivendo isso hoje em dia. Por isso uma vontade também de dar um passo para trás e só olhar. E não sair gritando e nem levantando bandeira por aí. Eu estou um pouco assustada. Porque eu não consigo mais tomar partido, eu não quero mais partido e eu acho que as pessoas estão muito impulsivas, reativas, está estranho. Eu tenho uma amiga que ontem chegou no aeroporto e na fila do táxi ela achou o filho do Bolsonaro. E ela me mandou um vídeo – não sei o que aconteceu, mas – ela pega o celular dela e filma um vídeo dela chegando muito perto desse cara que é um moleque, o Bolsonaro filho, e ela fala: “seu fascista, homofóbico, filho da puta” e ele pega o celular rindo, e ela fala “tira esse sorrisinho da cara”. E eu não sei o que é mais violento. Eu fiquei chocada, quero saber o que aconteceu antes. É uma hiper-reação que também me dá medo. 1789 é um lugar muito importante de pesquisa também. De nós sempre voltarmos à revolução francesa e ver o que aconteceu. Eu acho que a gente está bem nesse momento. O melhor caminho talvez seja a terceira via. A terceira via não é o espiritismo nem o caminho espiritual, a terceira via para mim é essa opção de dar um passo para trás e fazer um atelier caseiro e viver aqui nesse menor e escutar um pouco mais e continuar tentando entender o jogo a obra, a construção apolínea, estar aqui. E pra onde a gente vai? Cadê a terceira via? E ao mesmo tempo ela está acontecendo. E não é nem uma volta ao movimento hippie, aquilo também não deu certo. O filme da Ines Varda que se chama Lions Love and Lies é um filme lindo que ela fez com os dois caras que criaram o Hair e com a Viva que é a estrela do Andy Warhol. Esse filme é tão bonito porque ele é nada. Ele é um documentário fictício. É muito bonito o filme. Mas o filme é bem a década de 60, o final da década de 60. tanto é que o filme mostra o tiro do Andy Warhol, no meio do filme, são dois homens e uma mulher que estão casados, esperimentando um novo tipo de relacionamento e o mundo, que é em Los Angeles começa a se deturpar. E de repente eles recebem a notícia de que a cineasta que estaria fazendo um filme com eles iria se matar, o Bob Kennedy leva um tiro, o Andy Warhol leva um tiro, e o filme muda de tom. O movimento hippie, o movimento todo do qual eu sou filha também mudou de tom. O sonho acabou. Eu acho que não é uma volta àquilo. Mas cadê a terceira via? Não é mais a contracultura. Cadê a terceira via? Eu não sei onde está. Então acho que é melhor a gente ficar em casa e fazer uma terceira via particular. E eu estou me alienando mesmo. De alguma maneira. As vezes eu percebo isso, que estou bem alienada. Eu não quero ler o jornal. Sei de orelhada o que está acontecendo. Não quero mapear os nomes e as pessoas. Eu quero distância disso. Estarei dando o meu melhor se eu ficar distante disso. E ir para esse terceiro – é um horror, talvez eu seja presa, excluída porque... eu não acredito mais no movimento de classes e nem na palavra de ordem, aconteceu alguma coisa. (Bonito, olha). Eu fico bem louca com isso. E é tudo a mesma coisa. As vezes você não tem isso: o sol que eu estou vendo é o mesmo sol – não é mas – é o mesmo sol que não sei quem viu, que todo mundo viu. Tchecov: todo mundo que está aqui, mesmo aquele nenemzinho que está ali, daqui a 150 anos não vai ter mais ninguém. Ninguém. Isso é um pensamento totalmente tchecoviano e eu acho isso tão bonito. Porque você também pensa nesse pequenininho que você é. (eu acho ela uma impostora). Você viu O Artista Está Presente? É o documentároi da vida dela. De quando ela começa junto com o parceiro dela, marido dela, eles moram em um trailer. Eles fazem as performances. E o marido trai ela. E eles se separam. Eles fazem uma última performance juntos e ela está com uns 40 anos e ela fala “vou mudar de vida”. E ela se monta. Ela monta o personagem dela mesma. Á la Andy Warhol. E quando ela faz O Artista Está Presente, um negócio que no MoMA ficou famosíssimo e tal o cara vai, o ex-marido. E ela ficou milionária e ele ainda está lá no trailer. E eu achei muito estranho aquilo. Eu vi o filme de um jeito muito estranho. Como o da Vivian May. Da fotógrafa que era babá. Você viu esse documentário? O moleque qe descobre as coisas dela – eu gosto dela porque tem isso: é uma obra de gaveta – e ela era uma acumuladora. Mas o menino era um comerciante. O que ele faz com as fotos dela, ele traz ela à tona, nós conhecemos as fotos dela por causa dele...e o documentário é ele mesmo quem dirige, e o documentário é um pouco, não sei se foi a intenção dele também. Acho que não, porque eu achei ele bem “Steve Jobs”. Existe uma aura Steve Jobs no mundo. Nós estamos criados, um pouco, por ele. Nós temos o sistema dele conosco. Eu sei mexer muito bem no sistema Steve Jobs. Tem toda uma geração aí que é criada pelo Makintosh. Pelo desktop do Makintosh. Isso é bom pra caramba porque eu adoro o Steve Jobs, adoro a Apple, mas ao mesmo tempo eu acho terrível. Eu li toda a biografia dele falando “é um Fausto moderno”. Outro dia me peguei também falando – porque eu sou muito ciumenta – e eu me peguei com ciúme, não era inveja, era ciúme. Ciúme. De um menino que convive comigo e que é muito jovem, muito artista, muito hipster. E uma hora eu falei duas coisas para ele, porque ele foi me irritando em um grau, que uma hora eu falei para ele: você só toma cuidado com mordida de rata velha, porque mordida de rata velha é a que dói mais e a que deixa cicatriz. Eu me achei o pior dos seres humanos, porque o menino estava me irritando, proque ele era muito genialzinho. E depois eu soltei essa: com 20 é fácil. Com 60 você permanecer sem morrer, aí o negócio pega. Você permanecer livre aos 60 é muito diferente de permanecer livre aos 20. Aos 20 é fácil. (agora nós já podemos começar a falar de assassinato...). Eu posso te contar a história do patologista – outro personagem que eu estou amando, o nome dele é Paul O'Connor. E não é mais o Bob Kennedy, é o John Kennedy. O John Kennedy que levou o tiro na cabeça e que também é uma história que você começa a ver e não consegue parar. Porque é muito louca. Em Dallas, Texas. Andando com o carro dele conversível. A cidade para e ele passa em comitiva. E ele leva esse tiros que não se sabe se foi esse Lee Osvald quem deu ou se foi uma constpiração – e então o mundo se divide em pessoas que acreditam em uma conspiração e pessoas que acreditam em um assassinato de um psicopata. Não deu pra saber porque mataram o Lee Osvald. Mas em 1980 fizeram uma recriação do julgamento. Fizeram o julgamento para o Lee Osvald, mesmo ele estando morto. Fizeram isso na Inglaterra. E eu assisti ao julgamento inteiro porque é o Vincent Bugliosi que está na promotoria. E o advogado de acusação quer libertar o Lee Osvald e falar que foi uma conspiração e o Vincent Bugliosi, que foi o promotor do caso Charles Manson, e ele acredita na psicose humana falando que o Lee Osvald era culpado. O fato é que esse cara chamado Paul O'Connor é um moleque de 22 anos que estava de plantão no hospital para onde levaram o JFK. E ele conta qual era o papel dele no necrotério. E o papel dele seria, era o que ele estudava e estava apto para fazer, ele cuidava de todas as químicas da autópsia e ele ficava com a cabeça do morto. Então naquele dia, do Kennedy, ele estava com a cabeça do Kennedy. E no tribunal ele conta como se tira o cérebro de um cadáver. E ele faz exatamente assim: você faz uma incisão daqui até aqui, aí você – acho que é escalpela – tira toda a parte da frente, e ele fala isso para todos. E depois você – vai escutando, porque é bom. Eu até comprei um livro de anatomia do cérebro – depois você escora o cérebro, enfia toda a mão esquerda lá dentro e puxa o cérebro. E vai cortando tudo o que amarra ele. E o advogado de defesa fala: e você fez isso na cabeça do presidente Kennedy? O Paul O'Connor fala: não, eu não tive a oportunidade de fazer. Porquê? - o advogado pergunta. E o Paul O'Connor fala: não tinha cérebro na cabeça do presidente. O cérebro já tinha voado. E o jeito que ele fala é tão literário; um presidente sem cérebro. E a construção, essa construção dramatúrgica dos advogados, eu sou fascinada por isso. Esse Paul O'Connor – eu até comprei todas as entrevistas dele, é um cara que já morreu, há pouco - ele estava lai naquele dia. Que foi um dia muito louco nesse hospital. Se você pensa nos residentes, nos estudantes que estavam ali e de repente vem o Kennedy baleado, já morto, e pra mim, a coisa mais maluca, que eu fiquei com essa obsessão – e o Andy Warhol trabalha até esse frame – que é: quando ele leva o tiro tem uma pessoa filmando, acho que super 8 num ângulo e o cara filma tudo. E então ele filma o primeiro tiro, filma o cara que está sentado na frente levando o segundo tiro, filma o terceiro tiro e ele filma a Jaqueline Kennedy, que estava inteira de cor-de-rosa, indo para a parte de trás do conversível, parece que indo pegar o cérebro dele. Que voa. Eu acho isso muito simbólico. Essa morte, a morte do Bob Kennedy, a morte do John Lennon, acho tudo tão simbólico, tão fictício. E tudo isso tem a ver com esses psicóticos, os assassinos, esse raciocínio invertido, essa lógica, coerência de serial killer. Porque é que eu estou estudando isso e não uma coisa menos violenta? Porque o julgamento? Porque? Estou fissurada por isso, parece que tem alguma coisa no mundo que, quando eu vejo a história do Jim Jones e do próprio Manson, eu acho isso tão atual. Acho que a gente está tão perto disso. As pessoas estão falando coisas tão absurdas. Dá até medo. Dá vontade de fechar a porta e falar: venham me visitar aqui em casa. Eu não preciso mais sair de casa. Mas eu adoro ir até a esquina, voltar. Se saio pra viajar eu fico com uma nostalgia do lar. Eu tenho viajando tanto, tanto. E é tão bom voltar. Por mais que aqui não tenha paisagem, seja essa a cidade, e essa cidade é tão feia. Lindamente feia. Eu tenho uma coisa com o concreto dessa cidade. Minha vontade é ficar aqui. As vezes mudar de casa para mudar de cenário. Sabe que eu projetei uma casa em que a minha idéia é tudo ser em um lugar só. Um estudião. Eu posso dormir aqui no futon. Imersão. Isso também faz parte da utopia. E aí quando a gente vai trabalhar a gente trabalha em imersão. Eu estou fazendo uma coisa agora com o Fause Hatten que estou amando que é a mesa de trocas. E a mesa de trocas para mim é esse exercício de tentar entender essa geografia da criação. Se produz dentro deste atelier mas eu vou até o atelier do Fause e ele vai me mostrar um pouco do que é essa cartografia dele, do que ele está estudando, o que ele está fazendo, e a idéia é a gente levar coisas um para o outro, fazer coisas um para o outro em uma mesa de trocas. E aprofundando a mesa de trocas poderia ser uma imersão onde a gente convive juntos, onde temos cada um as nossas individualidades, cada um vai pra um quarto, e nós convivemos juntos em prol de alguma coisa durante um período curto de tempo. O Fause fala uma coisa muito bonita, que ele também tem essa utopia e que ele acha que as relações dentro da criação, as hierárquicas e as práticas teriam que mudar um pouco que é: eu entendo a sua poetica e entendo o seu foco de pesquisa agora. Eu sei que ele está estudando a questão do abuso, a biografia toda da Marlene Dietrich, tem uma coisa de ele costurar no corpo dele mesmo, ele é um estilista, ele trabalha com pano, um artista plástico, ele expõe isso. E no que eu puder contribuir com o meu conhecimento técnico de alguma coisa, eu contribuo. Eu posso vir a dirigir ele ceniamente e ele sente falta de uma interlocução para apresentar aquela ação que ele está querendo apresentar em outubro. Então eu vou entrar como uma colaboradora, uma provocadora, porque é uma técnica que eu sei. Eu sei como ele pode conduzir o público a mudar o foco, isso é teatral. Em um palco, o foco está concentrado – por exemplo – ali na tua esquerda. Se você coloca todos os atores que estão na esquerda, com um som X, olhando – estou exagerando – para a direita, o público inteiro é convidado a olhar para a direita. Isso é técnico, isso é do platô teatral, do enquadramento do teatro. E eu domino mais ou menos esse instrumento por viver muito tempo na cena com toda aquela instrumentalização da qual eu te falei antes. É um estar presente. É um estudo do estar presente e de todos os fios que saem desse estado de presença e que você vai manipulando. Eu posso colaborar com ele nesse sentido. Ele pode colaborar comigo me vestindo na performance que eu vou fazer para mostrar aquele fragmento da minha cartografia poética. Eu vou pegar só os cadernos da Virgínia Rey, vou espalhá-los no espaço e vou falar uma compilação dos textos da Virgínia Rey que é uma personagem que eu criei. E que é quem escreve, quem assina o que eu escrevo. Parece loucura, mas não é. Tem uma lógica. E ele, que tem a instrumentalização do vestir, e sabe que a roupa também fala e que é uma coisa que eu não domino, ele pode contribuir com isso. O sistema de trocas, na arte, por enquanto – e uma coisa mais do artesanato, da manufatura – eu acho que pode ser um caminho. De as relações irem mudando. O Fause me convidou para dirigir uma peça para ele e o convite era: vem dirigir minha peça. E nós fomos conversando e vendo que não, não é uma direção. É abrir mão de uma instrumentalização que eu domino e com a qual eu posso contribuir para o trabalho dele mas aquele trabalho é dele, aquela escrita é dele. Eu estou achando mais – como se diz isso? - tranquilo esse sistema de trocas. E a gente pode se relacionar com as outras pessoas dessa maneira. Tem pessoas com as quais eu adoraria fazer imersões para construir alguma coisa. Eu estou indo agora para Roma, tem uma mulher que foi atriz do Antunes e agora ela é mulher de um diplomata que também foi ator aqui no Brasil e eu vou para a casa dela para aprender a fazer um – UM – sapato. Ela tem um atelier onde ela pode manufaturar um sapato e para todos que vão lá trabalhar com ela, ela fala: vamos aprender como se faz um sapato? Para quê, não é? Mas é um trabalho artesanal, comum a nós duas, que pode desvendar uma ação de uma conversa e de uma troca e pode virar uma outra coisa ou ser só aquilo mesmo. Por isso é que estou gostando tanto assim dessa Eleonora Fabião. É uma carioca, ela está aqui pertinho e eu fiquei com vontade de ir até ela. (o Mal de Montano baixou na minha cabeça). É que eu acho controle essencial. Tanto é que eu tenho pânico de avião, e isso é muito característico. Se você se observa um pouco, as vezes eu faço isso, eu tenho que ter total controle de todos os objetos que estão aqui em casa. Isso pode ser excessivamente chato, porque é quase um TOC: eu tenho que ter controle do meu ponto de visão quando estou escrevendo alguma coisa, as coisas tem que ser organizadas simetricamente, se tem alguma coisa desorganizada ou alguma louça para lavar eu vou lá e lavo. Quando eu entro em um avião é a perda total do controle: não há nada que eu possa fazer. Eu fico muito desesperada com essa situação. Mas o controle é apolíneo, ele não é um “deixar rolar”. E ao mesmo tempo é o controle do descontrole, porque eu acredito totalmente no acaso e que uma coisa leva à outra. O que eu me senti mal na universidade – e é por isso concretamente que eu não sou uma pessoa acadêmica, porque aquilo quase me matou, nos 4 anos em que eu fiquei na faculdade de letras – é eu ter que seguir uma bibliografia dada. E para mim a leitura, desde que eu comecei a ler, é algo que uma coisa leva à outra. De repente, ao acaso, quando eu tinha 14 anos, caiu um livro da estante e eram os cadernos de Malte Laurids Brigge do Rilke. E isso mudou a minha cabeça. O livro do Charles Manson, do Bugliosi, que eu li um ano atrás, eu estava na casa do meu pai e era um livro que estava em um sauna desativada. Todo craquelado o livro. E eu: nossa, é o cara do Charles Manson. Achei aquilo tão estranho e comecei a ler o livro. E eu me apaixonei pelo Vincent Bulgiosi. E foi aí que eu descobri essa inversão moral, e o Charles Manson já levou pra uma outra coisa, o Jim Jones já levou para um outro livro, do O.J.Simpson, e eu já comecei a pesquisar o livro dele sobre o Kennedy e uma poética se estabelece a partir de um acaso, e muitas outras coisas podem entrar. Então a bibliografia, eu não posso ter controle sobre ela. Tanto é que eu leio várias coisas ao mesmo tempo. É como um jogo. Do acaso, em que as coisas vão sendo dadas, dadas, e você vai chamando cada vez mais e uma coisa vai levando à outra e é como um milagre, uma mágica. Porquê ontem, eu encanei, vendo o filme da Ines Varda pela décima vez, que eu estou estudando o filme Lions Love and Lies, de entrar no youtube e pesquisar o cara que deu o tiro no Bob Kennedy e fiquei 50 minutos vendo esse cara falar, querendo transcrever a fala dele, e você já põe aquilo em cena e já é. Já é conflito, já é terror. Já é uma peça psicótica, já é um shot tragédia, já é um “o mundo virou de cabeça para baixo e eu não percebi”. E aí tem a questão do louco, porque o ponto de vista dele, o cara que deu o tiro, é totalmente coerente. Ele consegue se defender. E falar que as pessoas é que precisavam pedir desculpas a ele. Por ter prendido ele. Ele deveria estar solto. As pessoas deveriam agradecer por ele ter dado um tiro no Bob Kennedy. O que é isso? A gente perde o humano assim. Mas eu estava falando isso por causa do controle. E o controle também é um exercício. As vezes você vai para uma pista errada. Eu fui para uma pista um dia que não é errada porque eu vou chegar nela, mas eu ainda não tenho inteligência para assimilar tudo aquilo que é o número de ouro. Eu comprei um livro que explica como ele é um padrão, um padrão da natureza, de Deus, e ele é matemático, está na geometria sagrada, e está nas fotos do Bresson, na pétala de flor e na célula. Eu fui estudar isso muito avidamente e vi que isso é uma pista falsa por enquanto para mim porque eu ainda não consegui lidar com essas informações. Mas as outras vão vindo, não tem controle. É uma coisa que leva à outra que leva à outra que leva à outra que leva à outra e tudo é ao acaso. Então o acadêmico quando me vem que eu tenho que defender a minha metodologia á partir de outras e fazer aquele percurso bibliográfico x que é a metodologia que encaminha eu já me desespero porque não tem mais acaso. Eu me lembro que na faculdade eu falava: porquê eu estou lendo isso? Eu queria estar lendo aquilo que estava me movimentando tanto e agora eu estou lendo isso e grifando e não está me tocando em nada. Que tempo é esse que eu estou perdendo? É um controle do descontrole. Bem concretamente, eu acho que quando as coisas começaram a mudar para mim foi quando eu fiz a peça Rainhas, que nós assumimos a escrita da peça, eu, a Georgette e a Cibele, e que para mim foi uma mudança de águas e é nesse caminho em que eu ainda estou, vivendo as mudanças do jogo que eu comcecei a estabelecer lá com elas. A produção da peça era minha e do Henrique Mariano e era uma peça que eu queria fazer fora da compania aonde eu estava há 6 anos. E eu mesma produzi e fui a proponente e o modus operando, como as pessoas iriam se relacionar, eu podia pensar um pouco nisso. Ter mais autonomia, autoridade. Mas a minha autoridade é sempre para a troca, para a horizontalidade. Todo mundo é criador. E todo mundo escreve. O contrarregra escreve. Cada um com seus instrumentos. Eu chamo de dramaturgia expandida. Nós começamos a fazer no Rainhas. E quando eu estava estudando os editais – que é uma coisa que eu não faço mais também, não tenho a menor paciência – para ver como eu iria elaborar o projeto, eu pensei que texto, que texto? E olhei na estante que estava sobre o meu computador na época – e eu tenho o toque de deixar todos os livros arrumadinhos – e tinha um livro da Aguilar, um livro raríssimo que eu tinha comprado em uma livraria super rara, meio para fora. E eu fui empurrá-lo para ele ficar todo certinho com aqueles outros livros. E aquele era o segundo volume das obras completas do Manuel Bandeira que foi a primeira edição que a Aguilar fez do Bandeira que está completíssima e que é linda. Tem as músicas que ele pôs letra, do Villa Lobos, é linda aquela edição. E aí eu fui empurrar o livro ali para dentro e lembrei que eu tinha lido a tradução do Mary Stuart do Manuel Bandeira naquele livro. E eu tirei o livro da estante e abri a tradução – não sei porquê – abri bem na cena em que o Schiller inventa que as duas rainhas se encontraram. Elas nunca se viram, Elisabeth e Mary Stuart, mas ele inventa uma cena para elas. E eu pensei: é isso. É esse aqui o ponto de partida. Só que ao invés de 14 personagens como tem aqui nessa peça eu vou fazer só com 2. Veio tudo. Só com 2. vou fazer um jogo, um embate entre as duas rainhas. Isso aqui é uma peça. E agora nós vamos refazer isso, que estreou em 2008, há quase 10 anos atrás. Foi uma nascente para mim, mas foi totalmente por acaso. Era só uma escuta a mais. As vezes você fica tão bitolado no que você quer que as coisas te atravessam e você não vê. Eu vejo isso acontecendo direto. Comigo. Como eu não vi? Aí você vê depois. Mas ver depois também está válido. Se dar conta de que não escutou também é válido. É o que mais tem. Mas ver os outros quando eles não escutam e no processo teatral você vê isso com mais clareza. Então, se uma pessoa quer dar um passo maior do que a perna, se a pessoa tem um desejo e não vê que para ela mover aquele trampolim que ela quer que desça do teto e caia não sei aonde no meio da caixa cênica ela precisa que o contrarregra esteja trabalhando com a sua menor grandeza também e gostando de estar mexendo naquele urdimento e ele também é um poeta porque ele pode fazer o urdimento descer assim: Poft. E ser horrível, mas ele pode fazer o trampolim que eu estou descendo descer no ritmo da cena porque ele es†á conectado com todo mundo. As vezes você vê quando o diretor se perde. Porque ele não está escutando, ele está querendo desenvolver a linguagem dele. E aí ele põe todo mundo para trabalhar para ele, mas não escuta o que está vindo das coxias, de baixo, de cima, dos atores, do texto. Do próprio texto. (posso continuar?). Nós temos agora uma coisa agora de desconstruir os textos. Isso começou na década de 90. a primeira coisa que um grupo de alunos faz é: vamos pegar o Hamlet e transformar ele em uma vaca dentro de um presépio... já quer desconstruir, mas primeiro escuta o que a peça está querendo dizer. Não queira transformar a peça em uma obra de arte sua. Escuta. Escuta, o que é aquele negócio dos coveiros, o que é que o Shakespeare está falando há tantos anos atrás. O que ele já estava dizendo? Escuta, deixa assentar, deixa decantar. (mas olha: os nomes, da matéria que se cria como discurso, eles se apagam). Isso é o Mal de Montano: cita o Shakespeare, você cita o Schiller, você cita o não-sei-o-quê, mas na verdade você não está citando ninguém. Você está pegando uma massa de informações e está fazendo um discurso próprio; isso é o Mal de Montano. Lê o Villamatas, é muito legal. Porque ele começa a usar tudo aquilo para contar a história dele. O que eu estou falando não é uma verdade absoluta. Os nomes que eu estou citando vêm para, as vezes, engordar um ponto de vista. Talvez não.
cadernos para queimar
caderno sobre caderno
São Paulo, 24 de novembro de 2010

Ao Banco do Brasil:

Eu, Isabel Teixeira de Oliveira Setton, nascida em 10/11/1973, portadora do rg nº 21.241.718-6, CPF 198.893.068-59, casada, venho por meio desta explanar minha atual situação frente ao Banco do Brasil e solicitar que reavaliem os procedimentos tomados em relação ao meu nome. Vou relatar em detalhes um histórico:
Em 1994 foi aberta uma conta com o meu CPF na agência da Nossa Caixa Nosso Banco da Av. Tiradentes. Esta conta foi aberta a pedido do meu pai. Na ocasião eu dependia dele financeiramente e ele me garantiu que abrir uma conta conjunta com ele seria um facilitador nas nossas vidas. Não consigo me recordar ao certo, mas acredito que esta conta tenha ficado aberta durante quase dois anos. Eu confiava inteiramente na administração do meu pai e não acompanhava os detalhes da conta, tendo assinado alguns papéis no decorrer desses quase dois anos. Para minha surpresa, algum tempo depois, vários cheques meus foram devolvidos e uma dívida no valor de 14.000,00 na época, foi realizada em meu nome. Inconformada com a situação, pois fui pega de surpresa, pedi explicações ao meu pai, que disse que resolveria em breve o problema. A partir daí, os problemas aumentaram: meu nome foi para o Serasa e o SPC, um oficial de justiça bateu na minha porta para avaliar meus bens (verificando que eu não possuia nenhum), e fiquei sabendo que eu não poderia abrir contas em nenhum banco ou contrair crédito de modo algum. Mais uma vez solicitei ao meu pai que resolvesse a situação e cheguei até, com a ajuda da minha mãe, Alexandra Corrêa, já falecida, a ir a um advogado da Nossa Caixa para tentar fazer uma proposta de parcelamento da dívida. A proposta foi efetuada e a resposta do banco nunca chegou. Infelizmente, não tenho como comprovar a tentativa de parcelamento dessa dívida pois, com a morte da minha mãe, este documento se perdeu. A situação descrita acima perdurou por mais 5 anos. Durante este período fiquei vivendo como uma inadimplente, sem poder ter qualquer vínculo com nenhum banco.
No ano 2000, eu soube que minha dívida havia "caducado", como se diz na linguagem corriqueira. Abri então uma conta no Banco Bradesco, da qual sou cliente até hoje, reestruturei minha vida financeira e tirei diversas certidões negativas comprovando que meu nome estava, enfim, limpo. Minha situação na Nossa Caixa Nosso Banco havia se normalizado, eu fechei a conta e meu pai, me garantiu que a dívida havia sido paga e eu estava zerada.
Desde então, minha vida financeira se estabeleceu. Sou atriz (premiada com prêmio Shell de Melhor atriz em 2009), produtora, autônoma, possuo uma micro empresa (Arquivivo Produções Artísticas e Culturais LTDA M.E.). Em 2008, ao ganhar um edital da Secretaria do Estado da Cultura (o PAC nº08 para produção de espetáculo teatral), me solicitaram que eu abrisse uma conta jurídica na Nossa Caixa Nosso Banco, uma vez que a movimentação do patrocínio se daria através desse banco. Fui até a agência da Av. Angélica (0847) a abri a conta jurídica de número 04-002902-1. O gerente que me atendeu foi o Sr. Euclides. Na ocasião, ao avaliar a papelada para a feitura do contrato, o Sr. Euclides constatou que havia uma tela acusando a dívida de 14.000,00 contraída em 1994. Surpresa, eu expliquei ao gerente o histórico dessa dívida, ele deu um telefonema para a Ag. da Av. Tiradentes, falou com um gerente de lá e me disse que aquela era uma tela antiga e a dívida havia realmente sido paga. Porém, a tela havia permanecido, uma vez que casos assim costumam acontecer. Prova do que estou dizendo é que minha conta jurídica foi aberta (mantenho esta conta até hoje) e meu projeto foi realizado com sucesso através desse banco até o ano de 2009 quando prestei contas ao Estado, encerrei o projeto, mas resolvi permanecer com a conta aberta.
Em 2010, mais especificamente em abril, comecei a movimentar um outro projeto de circulação de espetáculo, patrocinado pela Petrobras e ligado diretamente ao MINC. O edital em questão promovia uma itinerância pelo norte do país de uma peça realizada pela minha empresa, que obteve sucesso na cidade de São Paulo e em diversas cidades do Brasil. Foi por conta dessa peça (da qual eu também fiz parte como atriz), que recebi o prêmio Shell de Melhor Atriz em 2009, além de inúmeras críticas positivas nos principais meios de comunicação de São Paulo. A itinerância realizada graças ao patrocínio da Petrobras, levou teatro de qualidade para 10 estados do Norte e Nordeste e foi encerrado em setembro de 2010. Em se tratando de um projeto apoiado pelo governo federal, tive que abrir uma conta no Banco do Brasil, o que o MINC costuma denominar Conta Patrocinada. Esta conta só pode ser movimentada seguindo as regras da conta patrocinada, ou seja, não se trata de uma conta comum, uma vez que está vinculada ao uso de dinheiro público e, ao final do projeto, presto contas para o MINC. Abri a conta na Ag. 6971 do Banco do Brasil, Edifício Itália. Entre abril e agosto de 2010, movimentei esta conta para a execução do meu projeto sem maiores problemas. Em final de agosto, faltando um mês para o término das viagens com o espetáculo, o meu gerente, o Sr. Bruno, me comunicou que o Banco do Brasil havia comprado a Nossa Caixa Nosso Banco e havia aparecido um impedimento no meu CPF em relação a uma dívida que eu havia contraído em 1994 no valor de R$14.000,00. Mais surpresa ainda, tentei verificar com o próprio Bruno se não havia nenhum engano nessa informação. Ele me disse que não e que não poderia fazer nada em relação a isso, pois estava fora do controle dele acessar a tela que desbloquearia meu nome. Impedida de dar continuidade ao meu projeto, fui imediatamente até a agência do Banco do Brasil da Av. Tiradentes e fui recebida pela funcionária Eliana no dia 24 de setembro de 2010. Durante as duas horas que permaneci na agência, contando SEMPRE com a boa vontade dos funcionários do Banco que, de certa forma se mobilizaram para investigar o meu caso, chegamos a seguinte conclusão: a dívida de 1994 poderia ter sido paga com desconto (o que não excluiria meu nome da tela de devedores do banco) ou (o que nesse caso seria mais provável) a dívida não havia sido paga. Meu nome estava limpo por causa dos 5 anos que a lei prevê, mas meu nome não estava em ordem frente ao banco. Convencida da veracidade dessa última hipótese e orientada pela funcionária Eliane, redigi de punho próprio um pedido de pagamento imediato da dívida (cópia em anexo), lançando uma sugestão de valor para a primeira parcela (R$ 1.003,93) e deixando a critério do banco a divisão do restante. Pedi a Eliane que desse entrada nesse pedido o quanto antes, pois eu teria que finalizar meu projeto e começar a prestação de contas para o MINC até final de novembro. Fora isso, estava quase no sétimo mês de gestação e comecei a ficar receosa com o pouco tempo que eu teria para a resolução do problema. Na terça feira, dia 28 de setembro, Eliane me telefonou e me disse que teria sido orientada para que eu fosse diretamente a uma agência onde eu tivesse uma conta do Banco do Brasil ou Nossa Caixa, pois só a agência onde eu teria uma conta poderia dar continuidade a minha negociação com o Banco. Disse a ela que não poderia ser minha conta patrocinada do Edifício Itália, uma vez que não é propriamente uma conta minha, e sim uma conta aberta para um fim específico. Sugeri que eu recorresse à Ag. da Av. Angélica, uma vez que eu tenho ali uma conta da Nossa Caixa que agora é Banco do Brasil. No dia 29 de setembro de 2010 me dirigi a esta agência da Av. Angélica, que estava com as portas fechadas devido a greve dos funcionários. Pedi para falar com algum gerente e fui atendida na porta da agência por uma pessoa que me disse que isso não poderia ser resolvido ali e teria que ser resolvido na agência de origem da dívida. Inconformada, liguei novamente para Eliane e só consegui falar com ela no dia 4 de outubro, devido à greve. Eliane (que sempre foi muito prestativa comigo) se comprometeu em pesquisar mais sobre o meu caso e, no mesmo dia, me retornou a ligação me informando que eu teria que abrir uma conta do Banco do Brasil na Av. Tiradentes para poder quitar a dívida através dessa conta. Eu questionei se o banco abriria uma conta no meu nome, uma vez que havia um bloqueio no meu cpf. Eliane me assegurou que não haveria problemas e me disse que a conta seria aberta com restrições e com a observação de que serviria apenas para quitar a dívida e, em seguida, seria fechada. No dia 7 de outubro de 2010 abri a conta corrente como pessoa física especificamente para quitação da dívida. Até então, eu não havia obtido nenhuma resposta concreta do banco em relação a minha proposta.
Na segunda feira, dia 11 de setembro, tentei entrar em contato com Eliane e não consegui. Isso se repetiu durante as três semanas seguintes. Eu já estava quase chegando no oitavo mês de gestação e não fui até a agência pois me foi diagnosticado um amadurecimento precoce de placenta, o que fez com que eu fizesse um repouso relativo. No dia 8 de novembro de 2010, finalmente consegui falar com a funcionária Silvia, do departamento administrativo, pelo telefone que, pacientemente, escutou toda a minha história e se prontificou a me ajudar, pedindo que eu ligasse novamente ainda naquela semana. No dia 12 de novembro falei com Keliane que me disse estar sabendo do caso e me relatou que meu processo havia sido encaminhado para o GERAT. Eu obteria uma resposta efetiva do GERAT até o dia 17 de novembro, no máximo. Nesse dia, liguei para o banco e não consegui falar com ninguém. Na sexta feira, dia 19, Silvia, do administrativo, me falou que estava ciente dos passos do meu processo, ciente da urgência, e me disse que iria cuidar pessoalmente para que a resposta viesse em breve.
Na segunda feira, dia 22 de novembro, depois de um ultrassom, fiquei sabendo que teria que fazer repouso absoluto até o fim da minha gestação. No dia 24 de novembro, hoje, recebi um telefonema de Sílvia me dizendo que havia recebido uma resposta do banco: a dívida de R$ 14.000,00 de 1994, havia sido reajustada para o valor de R$ 700.000,00.
Frente ao me desepero com tal notícia, resolvi redigir esta carta, explicando ao banco todo meu histórico e declarando me ser impossível quitar esta dívida por este valor. Isto está fora da minha realidade. Eu nunca sequer estive perto de tal quantia. Asseguro ao Banco que sempre tive boa vontade, nunca agi de má fé, sempre procurei resolver o problema da maneira mais direta e clara possível. Nunca me neguei a quitar a dívida que nem sequer contraí para meu próprio usufruto, uma vez que a minha ingenuidade juvenil me fez acreditar que nunca um pai agiria de má fé em relação à própria filha, o que comprova a minha total ausência de consciência nas minhas transações financeiras na conta conjunta com ele no ano de 1994. Mas frente a tal valor reajustado (R$700.000,00), só me resta apelar ao banco para que reavalie a situação o mais breve possível. Minha proposta é o parcelamento da dívida inicial (R$14.000,00) em 10 vezes. Peço perdão pela longa explanação, mas frente a tal situação, contando sempre com a boa vontade do Banco do Brasil (na figura dos funcionários que estão me ajudando muito), acredito que essas palavras não cairão no vácuo, uma vez que não estamos tratando apenas de números e sim, de seres humanos. Quem dera eu pudesse ter em mãos tal quantia, mas não é o fato. Tal valor comprometeria TODA a minha vida profissional, a do meu marido e, infelizmente, a dos meus filhos, impossibilitando que eu mude a moral dessa história, fazendo com que as futuras gerações acreditem no caminho idôneo, claro e reto que parte do seio familiar até as mais altas instâncias de poder desse país.


Sem mais, agradeço a atenção,



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Isabel Teixeira de Oliveira Setton
rg: 21.241.718-6
cpf: 198.893.068-54


24 de novembro de 2010

Berlim, 17 de junho de 2016.


Ao Holland Festival e aos gerentes do Volks Hotel:

Recebi um comunicado do produtor da Cia. Vértice (companhia teatral onde venho trabalhando nos últimos dois anos) que eu havia fumado no quarto do hotel e, em se tratando de um hotel NON SMOKING eu teria que pagar imediatamente a quantia de 150 euros como multa. Resolvi escrever essa carta para tentar esclarecer alguns pontos além de pedir o obséquio de vocês reverem minha punição:

- Em primeiro lugar, eu não fumei no quarto do hotel. Gostaria de saber quais provas vocês teriam para afirmarem com tanta certeza o meu desacato a uma lei interna do hotel. Me adianto na seguinte explicação: eu carrego comigo, dentro da minha bolsa pessoal, um artefato que no Brasil é chamado de BITUQUEIRA (foto em anexo). Esse recipiente serve para que os fumantes, que hoje em dia são tratados quase como personas non gratas, guardem as pontas dos seus cigarros, mais comumente chamadas de bitucas (daí o termo BITUQUEIRA). Sempre que fumo na rua ou em lugares reservados para fumantes, uso a bituqueira para guardar os restos dos meus cigarros. De tempos em tempos, a bituqueira tem que ser esvaziada. Se o Volks Hotel está afirmando que descumpri a lei do hotel por ter encontrado os dejetos da minha bituqueira no lixo do quarto (com aproximadamente 20 bitucas de cigarro), peço que por favor reconsiderem a punição. Pois, como afirmei anteriormente, eu não fiz uso de cigarros no quarto do hotel. Aliás, o hotel nos oferece possibilidades muito mais agradáveis de degustação de cigarros em seus espaços específicos para fumantes (da sala fechada do restaurante aos espaços abertos do lado de fora tanto na parte de baixo quanto no terraço). Eu não trocaria os ambientes agradáveis desse hotel reservados aos fumantes para fumar dentro do quarto, numa janela minúscula, onde não dá para passar nem uma mão inteira e aberta. Fora isso, o cheiro da fumaça iria impregnar todo o quarto e meu marido é um não fumante.

- Em segundo lugar, eu acendi, sim, dois ou três incensos do lado de fora da janela do quarto. Esse é um hábito que tenho quando viajo por dias seguidos (e estamos em turnê a quase um mês). Me foi ensinado pelo meu pai, que também viaja muito. Em todo quarto de hotel eu acendo o mesmo incenso para que eu reconheça pelo menos o cheiro do ambiente e assim possa me sentir mais em casa. Pode parecer estranho, mas é um costume meu. Como ser humano livre (apesar de ser fumante) ainda acho que posso perpetuar alguns costumes pessoais sem ferir as leis internas de melhor convivência em sociedade.

Dito isto, gostaria de pedir mais uma vez que reconsiderem o meu caso revendo as provas que os levaram a recorrer à lei e à aplicação da multa. Além do que, gostaria também que tratassem desse caso especificamente comigo, uma vez que a Cia. Vértice, seus dirigentes e produtores, não tem a menor responsabilidade sobre o caso.

Sem mais, agradeço imensamente a atenção e aguardo um retorno,

ISABEL TEIXEIRA
caderno sobre a existência institucional
caderno sobre a existência do corpo e seu estado
caderno sobre alvos ou
caderno sobre um presidente sem cérebro
caderno sobre a capacidade de se reproduzir
e a possível necessidade de deixar legado
AUDIO TIMELAPSES _____________________________________________
Sabe o que é o meu pânico? É invenção. É ficção, o pânico é ficção. O pânico é um instrumento. Você chama ele, então, por exemplo: eu não vou sair de casa. Nós estamos no dilúvio aqui. (Chove muito enquanto conversamos). Eu não estou com pânico. Mas se eu tivesse realmente a síndrome do pânico isso aqui poderia me despertar a síndrome do pânico. A mesma coisa quando eu subo em um avião. Eu subo em um avião, eu não tenho pânico do avião, não tenho medo de morrer. Mas eu criei um pânico para não viajar, entendeu? Para não passar pelo aeroporto que eu acho horrível, eu odeio a compressão do avião, eu odeio o cheiro do avião, a comida do avião. (agora eu estou me sentindo em 2001 – Uma Odisséia no Espaço). Porque acho que eu pensei tanto que eu queria ter pânico, para ter um motivo real para não fazer certas coisas, que eu acabei tendo. E qual é o sintoma do pânico? A mão sua, o coração bate muito forte, dá um puta de um desespero, eu normalmente começo a suar, mas eu sei que é um mecanismo da minha cabeça. Por exemplo: eu sempre achei que a Frida Kahlo teve uma sorte na vida dela que foi sofrer aquele acidente do bonde. Porque aquilo fez com que ela ficasse em casa. E eu fiquei esperando alguma coisa acontecer comigo, um tempo da minha vida, para eu ficar em casa. Eu achei que as duas vezes em que eu fiquei grávida eram momentos para eu ficar em casa, e eu não pude ficar. O pânico foi a primeira vez em que eu consegui delimitar realmente o que eu queria e o que eu não queria fazer. Porque, eu começava a suar e a tremer com coisas que eu não queria fazer mas tinha que fazer. A última vez em que eu entrei no aeroporto de congonhas eu estava indo para Porto Alegre em uma hora que eu não queria ir. E eu tive mesmo a síindrome do pânico de vomitar, assim, na entrada do avião. E não embarquei. Porque eu achei que, se eu embarcasse, eu teria uma parada cardíaca, da maneira em que eu estava. E eu não fui. E quando eu cheguei em casa; perdi o trabalho, perdi dinheiro, mas a produção entendeu que eu tenho uma doença. E quando eu cheguei em casa eu fiquei tão feliz de ter voltado para casa! E foi aí, neste dia de Porto Alegre, pela primeira vez eu falei: será que eu tenho pânico mesmo, ou isso é uma invenção da minha cabeça para eu aceita as coisas que eu realmente quero fazer? É que eu acho que toda doença, tudo é uma invenção, não é? Tudo é uma invenção da nossa cabeça. Eu acho. Se não fosse assim seria tão chato. Eu ouvi um relato agora de um grande, querido, amigo irmão meu que teve leucemia aos 16 anos. E é quimioterapia. E eu estou fazendo um trabalho com ele que é o estudo do fluxo narrativo, que é, um pouco, isso que eu estou fazendo agora. Você não pensa muito pra falar, você vai falando. Você pode se contradizer, mas vai contando uma história. Só que não se está mais no patamar da conversa apenas. Estou conversando com você aqui, abrimos uma cerveja, eu acendo um cigarro, vou ali, e continuamos conversando. É uma conversa de um fluxo narrativo – que é livre como uma conversa – mas já tem uma forma, uma linguagem. Porque eu o estou gravando. E depois eu posso usar esse material, transcrevê-lo, que é o que eu chamo de “a escrita no ar”, e eu, ao falar, estou escrevendo no ar dessa sala, e posso transcrever isso e transformar o que foi dito aqui, que é totalmente efêmero, na palavra sobre papel. Eu encarno o que foi dito e isso já vira outra matéria. E esse meu grande amigo e parceiro de trabalho, estou trabalhando com ele há 6 anos, e ele vem fazendo fluxos narrativos para eu transcrever, porque eu estou escrevendo uma coisa, que eu também não sei o que será, mas já tem um pouco de formato. E ele, pela primeira fez um fluxo que eu pedi, porque ele nunca havia me contado nada sobre essa época da sua doença, e ele fez um fluxo contando sobre o período que antecedeu a descoberta da leucemia, e depois o processo de cura dele. Que foi um divisor de águas na sua vida. Ele fala umas coisas tão bonitas, que “a doença não foi doença, foi um caminho para a saúde”, e “um caminho para mudanças”. E um caminho de auto aceitação também. Justo em uma fase da adolescência, ele morava em um lugar que não gostava, teve que fazer um tratamento e vir para São Paulo por isso, que ele gostava. E há uma hora, no fluxo narrativo que ele fala que, no fundo – ele ficou um ano fazendo quimioterapia, seis meses, depois ele teve um problema na cabeça do fêmur, que foi um efeito colateral da quimio, e ele teve que ficar seis meses de cama depois da quimio, depois de curado, e um ano sem por o pé no chão - esse processo todo, que deve deve ter durado cerca de 4 anos da vida dele, foi uma formação, e ele falava que achava que tudo havia sido criado por ele, de alguma maneira. E que isso fazia parte do caminho dele, da sua trajetória, da sua história, que ele mesmo estava escrevendo. Que a doença na verdade era uma mutação. É louco você pensar nisso. A minha mãe teve câncer, e quando nós fomos tentar entender o câncer dela, ela ficou muito brava, porque ela não queria admitir que ela havia criado aquela doença. Foi um acidente dentro das células dela e que pode acontecer. E isso era a vida dela, a trajetória dela. E eu acho que, a morte, nesse caso, foi um caminho para a saúde. Ela morreu no caminho para a saúde. E a saúde foi a morte. O descanso, a paz. Então eu não sei se a síndrome do pânico – e eu nunca falei isso nem para o meu analista, se bem que para o meu analista eu já dei a entender – mas eu me curo dessa minha síndrome do pânico rapidinho. Se precisar. Ela passa, como quando durante uma bebedeira, você leva um susto e fica sóbrio. Mas a minha síndrome do pânico tem me ajudado a... aceitar umas coisas. Uns caminhos. E a ter coragem também. A síndrome do pânico talvez não seja uma covardia. Talvez ela seja um ato de coragem de não ir ali. Não sair de casa naquele momento. Mas alguma saída é necessária, então: porque eu não estou saindo de casa? Porque eu quero ficar aqui, quero estudar. Eu quero trabalhar. Olha, falei uma palavra muito louca, que é “trabalho”. Porque para mim hoje em dia não existe divisão entre vida e trabalho. Eu já havia falado sobre isso. Eu trabalho até dormindo, hoje em dia. Eu trabalho 24 horas por dia, porque sonhar, para mim é matéria de trabalho. Eu tenho adorado sonhar. Eu controlo os meus sonhos e eu vi que o Jodorowski faz isso lindamente, porque é um treino. E eu fiz isso intuitivamente. Desde a década de 90 eu anoto os meus sonhos. Eu tinha caderno só para os sonhos. E depois o caderno diário acabou se tornando um caderno só. Que é sonho, diário, eu ponho tudo no mesmo caderno. Mas eu venho percebendo, já há muito tempo, que existe um ritmo, e existe um controle do sonho, que é: por exemplo, eu não tenho sonhado nada nos últimos meses. Eu não me lembro, acordo e não me lembro. Então há um dia em que eu sonho e me lembro. Um pedacinho do sonho. Então eu acordo, e escrevo, só esse pedacinho. Nessa mesma noite, eu dormirei, sonharei e lembrarei. Mas sonharei um pouco mais. No dia seguinte escrevo, novamente. Se eu escrever continuamente todos os dias, os sonhos começam a ficar com tantos detalhes, com tantas minúcias na narrativa escrita deles, eu me lembro de tantos detalhes que chega uma hora em que estou saturada, e canso de sonhar, e canso de escrever. E como na minha casa há muita agitação quando eu estou com as crianças, não é sempre que eu posso passar uma hora de manhã escrevendo os detalhes do sonho. Então eu paro de escrever. E vou parando de me lembrar. Volta o esquecimento total. Eu acordo e não sei o que sonhei. E então começa tudo novamente: lembrei um pedacinho, escrevo um pedacinho. E os sonhos têm sido cada vez mais interessantes, esses bolsões de lembranças de sonho. Eu acho que eu ainda estou trabalhando no sonho. Eu acho que estamos mudando, agora, loucamente, de paradigma. O que estava se falando que mudaria de paradigma na virada do século, agora está mudando. Eu acho que não estarei viva quando realmente mudar mas, o que é o trabalho? O trabalho, hoje em dia. Eu preciso ganhar dinheiro. Eu preciso trabalhar, mas eu tenho a sorte de, até hoje, ter conseguido, ganhar dinheiro com isso que eu chamo de trabalho, mas que, na verdade, é uma palavra apenas; o trabalho. Porque, na verdade, é a vida, é o viver o dia-a-dia. E o viver o dia-a-dia em um puta de um movimento. Ininterrupto. Viver em ateliê eu estou chamando hoje. Estamos aqui, só que eu moro aqui, eu moro nesse lugar. E eu entro aqui todos os dias e eu tenho muitos materiais, muitas gavetas. Gavetas que eu coleciono e que eu cultivo. Como se cultiva uma gaveta? Você começa um processo de trabalho que possa ser um caderno desenhado, pode ser um processo de escrita, pode ser a criação de uma idéia de uma peça, e cada lugar desse ateliê tem uma gavetinha. Pode ser o aprendizado de fazer um pão, por exemplo. E a vida no ateliê é: eu entrei nesse lugar e eu estou muito presente. E nesse dia, por um acaso, eu abri a gavetinha do faze o pão. E eu passo um tempo fazendo pão. E isso é uma pesquisa, é um estudo, um trabalho com as mãos. É um trabalho com água, com ponto de massa, tem um pensamento aí. E o pão foi assar e eu fui para o computador terminar de editar um vídeo de fluxo narrativo que eu estava fazendo em Curitiba, eu fui chamada para fazer um trabalho, mas agora eu só ando de ônibus porque tenho medo de avião, mas a ida de ônibus até Curitiba foi um trabalho muito legal, de olhar pela janela e deixar o pensamento solto, e de ler, o curso que eu dei em Curitiba foi como se eu estivesse ainda dentro desse ateliê, cheio de gavetas, mas com outro teto, com outras pessoas e então com outras provocações e outros disparos. E isso é trabalho. O jeito que nós conhecemos o trabalho, que é você ter um emprego, uma profissão, uma função no mundo, isso acabou. Eu acho. Eu não sei se eu estou mudando, ou sempre o mundo sempre foi assim – sempre foi, mas – eu estou começando a ver muito mais próximo de mim, nessa urbe paulista, as pessoas querendo trabalhar mais com as mãos. As pessoas querendo produzir mais honestamente o Ter. O Ter não ser um Ter lá longe. Eu quero ter, no meu caso, o caderno tal. Eu quero bolar o caderno tal, eu quero aprender a fazer o caderno tal. Eu quero estar ligada, de alguma maneira, com as pessoas que fizeram a Biblioteca de Alexandria, e estudou os pontos de costura da copta ou da costura chinesa. Eu acho isso tão legal, e isso é trabalho. Mas há uma dissincronia. Porque eu trabalho 24 horas por dia, mas o trabalho que é reconhecido é aquele institucionalizado onde as horas que eu estou trabalhando valem uma quantia de dinheiro. E com esse dinheiro eu posso continuar me movimentando. E se esse ciclo vicioso – porque ele é vicioso! - é cortado por algum motivo, eu vou morar na rua. Eu não vou pagar as minhas contas. E hoje em dia eu tenho tábuas de salvação. O pânico é uma delas. Porque é uma dispensa médica. É um diagnóstico. E olha que sorte: eu fui diagnosticada com pânico. Mas eu acho sorte. Uau! Rolou, deu certo! E o meu pânico me salva. Me deixa mais dentro do atelier. Outra tábua de salvação é estar em dia. Por menos dinheiro que eu tenha em determinado momento, eu dei um jeito na minha vida, de estar sempre em dia. Eu entrei outro dia no site do SERASA pra ver qual é a minha pontuação. E a minha pontuação é ótima. Porque eu sou uma cidadã exemplar. Eu sou uma ótima funcionária do governo. Eu pago todos os meus impostos. Em dia. No dia, eu não atraso. Eu não tenho dívidas. Eu tenho uma dívida com o banco quando eu entro no limite do cheque especial, mas ela é altamente controlada. Eu consigo controlá-la. Porque eu entro no site para ver as contas que tenho no banco todos os dias. Duas vezes por dia. Para ver como os números estão se comportanto ali. Toda vez que eu gasto alguma coisa eu dou baixa, eu anoto. Eu tenho um controle meu tenho um controle do banco. Mas eu também tenho um controle manual meu. Quase uma obsessão. E eu sou uma ótima funcionária porque eu quero ser livre. Porque eu não concordo com esse sistema, não concordo com esse jeito onde a palavra trabalho significa: eu trabalho para você e eu recebo esse dinheiro. Eu acho que todos deveriam ter uma pensão. Não sei como fazer, não sou eu que vou pensar nesse novo sistema de sociedade. Acho que não dará tempo. Mas ao mesmo tempo eu já sinto algumas brechas hoje, de comunicação. Ao mesmo tempo em que nós tentamos nos comunicar aqui eu estou em comunicação com outra pessoa também, ele se chama Igor Mendes, e ele agora está com 28 anos. E ele é um ativista político. Ele ainda acredita que existe uma esperança que se dá por um movimento de conscientização política. É muito bonito o raciocínio dele. E ele se juntou com muita gente, tem muitos companheiros e companheiras. É um jeito muito diferente de pensar, ele não é nem de esquerda nem de direita. Nem Dilma nem Temer. Quero conversar mais, ele vai lá em casa algum dia desses. Mas para ir na minha casa, ele terá de pedir ajuda, não, ajuda não: ele precisará de uma autorização por escrito do sistema judiciário brasileiro. Porque esse menino foi preso por se manifestar na candelária em 2013, depois das manifestações de junho, acho que foi preso em 2013. Ele foi um preso político, e ele acabou caindo em Bangu. E ficou sete meses em Bangu. E escreveu um livro sobre isso e, por uma série de coincidências-não-tão-coincidências-assim o livro caiu na minha mão e ele está tentando publicar, e eu o estou ajudando. Não é ajuda, isso não é ajuda. Porque eu não sou a freira que ajuda. Eu gostei do jeito que ele escreveu sobre o cotidiano dele ali, como ele foi humano, e ao mesmo tempo que incrível na idade dele ter tanta vontade. Como esse menino trabalha! Ele também trabalha 24 horas por dia. E nós temos conversado. Temos conversado muito por e-mail, e-mails muito longos. Ele descobriu que o que quer fazer na vida é escrever. Porque escrever também é um ativismo político. E temos tido conversar muito interessantes. Nós somos muito diferentes; minha política é a poesia. Eu tento não ver. Hoje pela manhã uma pessoa me falou uma coisa tão interessante: o Borges não lia mais as notícias nos jornais e não assistia mais jornais, os noticiários, no fim da vida, porque ele dizia que era criativo o bastante para imaginar por si só o que está acontecendo porque essas coisas sempre aconteceram igual. Mas há um paradigma mudando. O começo disso. [...] muito racismo, preconceito. A coisa está tão extrema, tão louca, hoje, em 2017, está tudo tão perdido que é um verdadeiro caos. Por isso é que eu acho que há um paradigma mudando, que vai demorar muito para mudar. Mas as coisas estão em pleno movimento. Um movimento muito negativo, e eu não consigo enxergar, não como o Igor Mendes, que acha que está na estrutura de organização da sociedade essa mudança, mas que está na cabeça de cada um. Estou mais Eu centralizada. Acho que está mais no atelier, mais em uma coerência, em uma consciência, de que se não for agora, será depois. Mas que será comum à todos. Há muita barbárie acontecendo. E vai um pouco pior daqui a pouco. E é todo dia. E sempre foi assim. Sempre foi assim. [...] como disse o o Luis Siquei, “gente, os cristãos ganharam! Eles são os vencedores”. Quem falou que o mundo começa no 1? 1 depois do quê? De Cristo. A maioria conta o mundo, as datas assim: Cristo. Todo mundo: 1, ano 2, ano 3... até agora, 2017. E o que vem antes? É retroativo: -1, -2, -3. E essa contagem do tempo é evolucionista, vamos progredir. Existe um futuro, existe um ano 8000. E ele vai chegar. Talvez seja esse o paradigma que está mundando: não existe isso! Isso não existe. Eu crio dois filhos. E um deles, com 13 anos, ou porque pegou recuperação, ou porque levou um carimbo em um caderno porque não fazia lição há um tempão e isso foi descoberto, porque a escola, o sistema educacional onde ele estuda, que é muito liberal, nos avisou. E eu estava em Curitiba. À mim a ao pai dele. E eu precisei falar com ele ao telefone. E ele estava muito bravo. Porque ele falou que não era preguiça. Era, simplesmente, não querer participar de uma coisa que não tem sentido. Para ele, aquela matéria não tinha sentido ser daquela maneira que ele estava aprendendo. E o que eu poderia dizer para ele? Eu disse isso o que eu estou dizendo agora: meu filho, passe de ano rápido, porque assim acabará mais rápido ainda. Você só será livre dominando todas as suas amarras. É uma merda isso o que o mundo nos pede. Que é: bom, agora você começou a escrever. Bom, agora você começará a fazer contas. Bom, agora você precisa passar de ano. Você ficou de recuperação. Olha aí: você não está na média do sistema. Vamos lá : recuperação. Bom, agora você terá de fazer vestibular para escolher o que você quer ser – sendo que você já é há muito tempo. É muito estranho tudo isso. Como nós não vemos o absurdo que estamos vivendo? Eu prefiro ficar panicada, mesmo. E o pânico, voltando para o começo – o que é o começo? O que é o fim? - voltando para agora; o pânico é uma liberdade. A loucura é uma liberdade, uma grande liberdade. Eu parei de ter medo de ficar louca. Que eu já sou. Mas acho muito redutor isso, também. E a minha loucura também é ter que esta com um pé aqui e agora, porque eu não quero que entrem na minha casa e cortem a minha luz. Veja o que pode acontecer: podem cortar a minha luz, meu gaz, eu ficar sem dinheiro para comprar um pão, o aluguel não será pago e por isso eu serei despejada, eu não terei como encaixotar minhas coisas, e é o suicídio. Mas se eu estiver com tudo sob controle, ninguém poderá vir e falar, me ameaçar nesse sentido. Mas, agora pensando no Igor: ele não estava fazendo nada de errado quando foi preso. E era no governo da Dilma. Que também foi presa política. E ele foi preso sob uma acusação, que ele me falou qual era... de conspiração, algo muito estranho. Acho que o mundo sempre foi assim. E se eu movimento no atelier, se eu estou em movimento – porque uma super estagnação é ruim... olha que louco o que eu pensei agora: eu acredito no trabalho. Trabalho é legal. Viver é se movimentar. Até quando você é cremado você continua em movimento depois que morre. Imagens da putrefação. Eu as vezes tenho isso. Minha mãe morreu há 11 anos. E as vezes eu tenho imagens da putrefação. Ela ainda está em movimento. A minha mãe foi enterrada. E fui eu quem a vestiu. Ela morreu, eu a vi morrendo na minha mão, ela escolheu o lugar onde iria morrer, o Hospital Santa Rita, porque tinha um jardinzinho que era possível olhar. E não houve entubação. Foi uma morte consciente, mas com morfina. A morfina é linda nesse sentido. Uma grande viagem, minha mãe morreu viajando, sem dor. E ela se concentrou muito para morrer. E eu vi a hora em que a vida saiu. Começou pelo pé. Foi ficando meio duro, eu fui sentido que vida estava saindo. O rim continuou quente, eu fiquei com uma mão debaixo do rim dela. Foi saindo a vida mas o rim continuou quente, e uma hora ela pum!, abriu o olho e me olhou – e ela havia me contado que, quando eu nasci, eu abri o olho, e olhei para ela – e quando ela morreu ela abriu o olho e olhou para mim. Muito bonito. Mas eu a vesti. E ela era muçulmana. Antes ela havia sido sufi, e depois entrou em uma via espiritual, que tem a ver com o islamismo, e no ritual, ela é casada com o Aloísio, meu paidrasto, e tradicionalmente eu precisei dar um banho ritual nela. E eu precisei colocar uma roupa nela, que no caso era um sari. E o sari você tem que enrolar várias vezes. E foi o nosso último embate, a nossa última luta. Eu fiquei sozinha com ela, o meu padrastro me trouxe uma bacia muito bonita com água e um pano de linho. Eu a lavei, agora já não me lembro se da cabeça aos pés ou se dos pés à cabeça. Vou perguntar isso à ele. E na hora de vestir o sari foi um embate. Eu suava e fazia frio, era um mês de setembro frio em São Paulo, em 2006, e eu suava. Virei ela para lá, virei ela para cá, foi uma luta. Nossa última luta, eu falei, é para suar aqui. Foi lindo fazer aquilo, mas foi exaustivo também. E quando ela foi enterrada, eu sabia exatamente como ela estava vestida. E ela ainda me deu o batonzinho, e disse: haverá velório mas você fecha o velório depois, não quero passar a noite exposta, existe a necessidade de o corpo ficar 24 horas, e ela me disse: passe esse batom em mim. E nós ríamos. E eu fui lá e passei o batom nela, e fui dormir. E no dia seguinte eu a enterrei, no ritual no cemitério de congonhas. E depois eu vi que o Comandante Rolim está a três lápides dela. Tudo para o vôo. E durante muito tempo eu tinha imagens da putrefação. Como está aquela roupa? Como está agora a pele? A mão que eu conheci durante a minha vida inteira? A mão que me criou. Que eu conhecia, eu tenho a memória da mão dela. Mas como está essa mão? E é movimento. Parece ser mórbido o que eu estou falando mas não é. É o Hamlet: todos irão morrer. Se não for agora será depois, se não for depois, será agora. De que adianta? Se não há como evitar? Não há. E as imagens da putrefação ainda é movimento. Ainda é trabalho. Existe um trabalho. Um trabalho post mortem. Um trabalho mesmo, de decomposição. Até morrendo você está trabalhando. Isso é o trabalho. Movimento. E chega uma hora em que acaba. Simplesmente. Fim. E me dando conta disso, o trabalho, a estagnação, esse morrer em vida e desistir é uma opção também. Tudo pode. Mas esse novo paradigma do trabalho é esse movimento. Eu tenho prazer em viver. E é uma luta também, porque o tempo inteiro eu esto pensando sobre isso. Até que ponto eu estou me deixando manipular por um estilo de vida e até que ponto eu estou na minha coerência do trabalho? Um trabalho honesto, honesto de movimento, de criança. Eu já trabalhava criança. Trabalhei muito criança. Aprender a andar é um grande trabalho. Aí você fala dos índios. Não tem tempo. [...] o pânico em relação à morte... Talvez seja sentir que é totalmente palpável a morte. O pânico no avião é muito engraçado. Porque o avião são toneladas e toneladas com várias pessoas dentro e o bicho voa, com um motor, ele é potente. Ele é apolíneo, ele é deslumbrante. Mas eu não tenho nenhum controle sobre ele. Sobre o mecanismo dele. Quando eu vou atravessar uma rua eu tenho um pouco de controle. Eu estava subindo a avenida Pompéia – bonito nome – a avenida Pompéia ela é um morro, se você andar na Pompéia em uma hora você vai subir, em outra vai descer, não importa para que lado você ande. E hoje eu imaginei, já imaginou se vem um carro descontrolado e me pega pum! acabou? Mas ali eu ainda tenho algum tipo de controle. Agora eu viajo de ônibus ou de trem. O trem pode explodir com uma bomba lá dentro. Um trem na europa. O ônibus que eu pego à noite para Curitiba as vezes vai assim. Mas eu sinto que tenho algum tipo de controle. Meu pai disse que bateu o carro na Marginal – foi a única vez em que ele bateu – e bateu feio, estava com criança no carro, o carro deu cavalos de pau, e ele disse que estava totalmente no caos mas no controle. No controle não é controlando a coisa; ele estava controlando o que estava acontecendo. E ele deu um, dois giros, viu que iria entrar na guia e parecia que estava tudo em câmera lenta para ele. E ele pensou: se a minha atenção despregar eu perderei este controle. Um avião é um mecanismo tão louco, uma coisa tão louca, um ar tão outro, que o meu pânico de avião talvez seja uma falta total de controle sobre a minha morte. Não que eu vá ter alguma na hora de morrer, eu imagino aquelas máscaras caindo, é uma velocidade muito alta, o trem vai em uma velocidade alta mas você está vendo as coisas passando, mesmo que seja assim. No ônibus também você esát vendo as coisas passando. No avião você está em algum lugar no céu. Que pânico. Mas meu pânico não tem a ver com o medo da morte, medo de morrer. O coração que bate, “eu vou morrer”. O pânico tem a ver com o “quero sair daqui agora”. É mais uma libertação do que uma morte. Mais um movimento do que uma morte. Eu não gosto muito de ir em festas, em lugares públicos, lugares com muita gente. E agora eu tenho pânico, então eu posso não ir. Eu não vou mais ao teatro, vou muito raramente. Eu não vou mais ao cinema. Muito raramente também. Eu adoro ver em casa tudo. Adoro poder parar abrir outra gaveta do atelier. Paro o filme que estou vendo porque me lembrei de outra coisa e eu estou neste fluxo da vida e não no que me é imposto. Apesar de eu ser uma boa funcioária. Os bons funcionários. Eu sou uma boa funcionária com consciência. Eu acho, ao menos. [...] eu me lembrei do Andy Warhol agora. De novo. Esses testes que ele faz para a câmera que a pessoa fica só olhando para a câmera. E hoje está muito 2001, eu estou louca pelo Kubrick de novo. O Kubrick tem a ver com esse Trabalho do qual estou falando. Porque não só a obra dele é, de alguma maneira, visionária e muito eclética – quem faz Barry Lyndon, 2001, De Olhos Bem Fechados, ou o Dr. Strangelove, uma comédia horrível, muito pessimista e muito engraçada ao mesmo tempo – e alguém assim que consegue entrar no maior sistema de arte comercial e ser muito livre, a partir de Spartacus, consegue uma liberdade enorme, ele está fora do tempo de produção cinematográfica. Ele tem o tempo dele e ele conseguiu abrir esse tempo. E não foi pouca gente que teve que entrar no tempo dele. Ele conseguiu abrir este tempo. É trabalho 24 horas por dia também. Não se deixar manipular. No caso dele isso é muito específico porque a falavra final nos filmes dele é dele mesmo. Ele é o seu próprio produtor. Uma pessoa muito inteligente. Ele conquistou isso, totalmente consciente. Um bom funcionário. E deveria irritar muito a Metro. Um funcionário tão bom que sai dos protocolos. Porque ele era um bom funcionário com distanciamento e consciência. Quem manipula quem, nesse caso? Esses dias eu reassisti o 2001 e é tão bonito. Começa com o que se chama de ponta preta. Uma tela, completamente preta. É assim que o filme começa, preto. E música. E você fica um tempão na sala escura vendo preto. E não vem nada antes. Por isso eu gosto de ver em casa porque se eu fosse ver no cinema eu teria de ver um monte de traillers antes. Mas em casa não. Apaguei todas as luzes, fiz um b.o. no meu quarto, liguei a TV o filme começou, tela preta, aquela música, fui sendo levada para outra coisa... aí vem: MGM. Mas acho que ele escolheu aquela arte, não sei, e o filme comçea de maneira muito louca, não deviam acreditar que ele fazia aquelas coisas, e ele é um bom funcionário! Na menor grandeza esse é o grande aprendizado. Até que ponto eu sou realmente livre? Até que ponto estou vivendo a vida única que eu quero viver? Por enquanto é só essa chance. Bem solitário. Eu li um livro do Alan Moore em quadrinhos, chamado Do Inferno. Uma compilação de todas as possibilidades de história do Jack, O Estripador. O livro foi jogado na minha mão, ou foi deixado ali para eu notar. E eu adoro as histórias do Jack, O Estripador, e gostei da pesquisa que ele fez sobre o Jack, O Estripador. Comecei a ler, não conseguia parar, e há uma tese no livro de que Jack, O Estripador é o começo do século XX. Onde começa a modernidade. E é o Jack, O Estripador. E existia algo místico ali, terrível. 5 assassinatos que desenham uma forma nas ruas de Londres. E conforme os assassinatos vão acontecendo, Jack, O Estripador vai tendo visões. E essas visões vão ficando cada vez maiores. E na última morte, que é a mais cruel, onde ele faz mais autópsia, ele estripa e tem visões com o futuro, com hoje, com os prédios. Isso ficou na minha cabeça. O que será que está acontecendo agora? Que mudança estamos vivendo agora? E que já está acontecendo, e eu faço parte disso, agora? Porque se não existe tempo, então tudo é agora. Já é. Eu não consigo me lembrar sobre o que nós já conversamos em outras ocasiões. Parece que eu falo e vou me esquecendo. Por isso o Andy Warhol. Nesse cenário do 2001. Se a escrita da fala acontece nesse momento e das outras vezes também, é como um diário. Será que no ano passado eu estava pensando as mesmas coisas que estou pensando agora? Será que a imagem captada e que já é passado tem alguma coisa a ver com essa que está acontecendo aqui e que será passado daqui a pouco? Mas eu continuarei, pelo menos por algum tempo, viva e presente, e a câmera – eu fiquei vendo esses testes do Andy Warhol e, muitas daquelas pessoas já morreram. E são pessoas apenas olhando para a câmera. E é tão estranho. Se você pegar uma foto de 1890, de uma rua cheia de gente. Imaginar que todas aquelas pessoas já morreram. Mas aquela foto está ali. E dentro da câmera há uma série de espelhos, a lente, e há um registro digital. Essa não linearidade do tempo agora me deixou confusa, porque existe um registro. Eu estou deixando meu cabelo branco. E talvez, da primeira vez que nós gravamos, ele não estivesse tão branco. E a mudança continua. Mesmo quando a câmera termina e registra uma coisa, se daqui a 50 anos, quando eu estiver morta, ainda em movimento putrefato, o que isso tem a ver com esse momento aqui e agora? 2001 Uma Odisséia no Espaço. Nós falamos de deslocamentos geográficos. Espaço. Sempre é um espaço diferente. Em épocas diferentes. E em uma época de muita mudança. O que não muda é a câmera, o registro. Essa caixa. Eu penso nisso porque tenho feito cinema. Há 3 anos tenho feito o mesmo filme. E é um filme ao vivo. E muita gente vai ao cinema ver isso que vai acontecer uma só vez, mas é filme. E não é gravado. Um dia me perguntaram: você faz cinema? E eu respondi que não. E a pessoa ao meu lado disse: mas é o que você faz há 3 anos, você faz uma peça ao vivo. Será que é cinema? As câmeras estão ali e elas não registram, elas não gravam. Elas transmitem. Para um outro espaço. Utópico. Fora do teatro. É bonito o que a Cristiane Jatahy diz, que nessa peça o teatro é a utopia do cinema e o cinema é a utopia do teatro. Mas agora, aqui, e por causa das repetições, eu fico pensando o que é essa matéria que nós criamos de memória no HD da câmera. Será que estou repentindo as mesmas coisas que já falei antes? Me deu uma sensação de estudo antropológico. Já que a minha intenção aqui é esta totalmente presente no dia e no trabalho, é um fragmento de um dia que tem pensamentos, e agora eu estou verbalizando alguns. Em um fluxo narrativo. Onde será que existem contradições? Me pareceu uma matéria bonita de pensar. No espaçamento de tempo das gravações, na liberdade e depois ver o que foi dito. De várias outras maneiras... e sempre sou eu. Eu sou a mesma pessoa. Em mutação contínua, constante, mas sempre a mesma pessoa. Me deu curiosidade de pensar se eu estou sempre falando a mesma coisa ou não. O cabelo também. Está sendo ótimo vê-lo embranquecendo, e a tinta que eu usei durante anos saindo aos poucos. E os brancos aparecendo, parece um desmascaramento. É uma tinta que eu tinha. Escorrendo lá para baixo e eu vou cortando e ela vai indo embora, indo embora. E dá para ver quem é. O rosto, como é. [...] o fluxo narrativo que eu desenvolvo aqui é uma matéria bruta. É o que eu faço com esse meu parceiro. Ele me dá a matéria bruta. Eu vou transcrevendo e posso editá-la. É o pensamento dele, em fluxo, que eu posso escutar, entender de outra maneira e editar de outra maneira. Gostei muito do último. Eu estava me ouvindo pela primeira vez. É um pensamento em cima de um fluxo. Quem escreve, quem fala? E o que é a câmera no “entre”? E daqui a 10 anos, daqui a 20 anos, pensando na linearidade cristã das coisas. É verdade. E se eu estiver falando exatamente o que eu falei em junho do ano passado? E isso, devido ao tempo, tenha outro significado? Agora me lembrei do quanto falei dos cadernos. E desde o começo deste ano eu comecei a construir o caderno. Diferentemente da encadernação do livro, ou do restauro do livro, o caderno é feito para outro alguém escrever. Ao menos as pessoas com as quais estou convivendo agora, que são encadernadores, profissionais de papelaria fina, que têm uma técnica... para mim é algo diferente, porque não estou fazendo os cadernos para vendê-los. É um curso com pessoas de vários lugares, mas provavelmente eu sou a única que não pensa comercialmente. Bem, há duas senhoras aposentadas que têm aquilo como um hobby. O trabalhar com a mão. A encadernação é muito complicada. Os erros são muito visíveis no momento, as dificuldades, e a questão é como você contorna um problema que é concreto, real, sem muita elocubração: eu furei errado, meu caderno está fora de esquadro, mas eu já o estou fazendo, e não é consertá-lo, mas como eu trabalho com esse vetor de erro sem existiu, sem desistir dele, jogar fora e começar do zero, isso para mim não vale. Como eu lido com o caderno torto? As vezes eu ando na rua pensando em estrutura de caderno. Estrutura interna de caderno. Vou na livraria e fico tentando um olho de raio-x para entender que tipo de costura é essa? Será que é uma costura francesa? Quando se abre o livro, industrial mesmo, você vê, consegue ler o livro de outra maneira. O livro enquanto objeto. E, para mim, a questão do caderno, que é um foco desse trabalho diário, eu trabalho para os cadernos, produzo para os cadernos, minha vida se costura por cadernos. E agora estou aprendendo a fazê-los. Eu já usei cerca de 3 feitos por mim. E é incrível saber de onde ele veio, como foi feito, como foi costurado, qual o tipo de costura está sob essa lombada de couro. Qual o tipo de cola que eu usei. Estou conhecendo a anatomia do caderno. E não tem fim. Você aprende um tipo de costura que pode depois misturar com outra. Existem mil técnicas e ao mesmo tempo é uma área muito aberta. Eu posso fazer o livro que quiser, misturar técnicas. Posso ter uma relação com o papel que sequer vem de técnicas, mas de um manuseio dele. E eu até hoje usei o caderno como suporte da escrita, do desenho. Ou do teatro. Outro dia eu pensei que todas as peças que eu fiz, todas, todas têm um caderno. O caderno era uma parte da criação teatral para mim muito importante. Se você pega o caderno que eu fiz para um bonde chamado desejo, há a concepção da peça e daquele personagem, naquele caderno. E existe uma história. O caderno me acompanha até o fim da peça. E a peça não termina, porque o caderno fica. E eu começo a pensar que, realmente, talvez os cadernos tenham ficado mais interessantes do que as peças. Mas agora é diferente, porque você luta com o caderno. Da mesma maneira que eu lutei para vestir o sari na minha mãe, você luta com o caderno. Eu cortei muitas vezes a minha mão, tirei uma lasca do dedo e não podia parar de fazer o caderno. Porque era um álbum que eu estava fazendo e naquele momento não era possível parar. E, antes de todas as aulas eu preciso assinar um termo de que tenho consciência do perigo de manusear os materiais que estou utilizando. É muito bonito ver meus primeiros cadernos errados, desproporcionais, tortos. Estou com carinho por eles. O caderno que eu fiz e percebi que o miolo estava muito longe da lombada. E o próximo que eu corrigi isso mas percebi que não estava usando a dobradeira de uma maneira correta. E esse é o caderno no qual agora irei escrever. Há uma mudança. Eu não havia pensado nisso ainda. Sabe que há uma coisa chamada cabeceado. É uma firulinha, que protege o alto da lombada do livro. Existem vários tipos de cabeceado. Há cabeceados que você compra prontos. E hoje eu aprendi com um encadernador argentino a fazer um cabeceado, muito simples. É um fio de cânhamo e você simplesmente embrulha o fio com couro. Existem medidas, e você cola aquilo na lombada. E hoje ele me explicou que esse fio se chama alma. É bonito pensar que o cabeceado tem a alma. A alma do livro está no cabeceado dele, e o cabeceado está na cabeça e no pé. Estou amando os cadernos. Isso aqui também é um caderno. O registro. As vezes eu volto aos diários, como me deu vontade de voltar às gravações antigas. Acho que eu sempre estive falando a mesma coisa.
caderno só para sonhos
Uma investigação sobre o desaparecimento de uma atriz e amiga, através de pistas deixadas em 3 entrevistas e vestígios diversos ao longo da vida inteira.

Ao final, a pesquisa revela mais sobre a existência do que sobre sua própria desaparição, e traz questionamentos sobre a virtualidade da convivência e a presença afetiva mesmo na ausência física.

A organização do material no formato de cadernos é uma homenagem à amiga, que recorre com frequência ao tema dos cadernos para abordar assuntos dos mais diversos, sugerindo que toda a existência se organize ao redor deste formato.
caderno sobre a maternidade em perspectiva
UM SÓ CADERNO___________________
EL PARSIFAL ENTRE DOS CAMPANAS_
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Una investigación sobre la desaparición de una actriz y amiga, a través de pistas dejadas en 3 entrevistas y vestigios diversos a lo largo de toda la vida.

Al final, la investigación revela más sobre la existencia que sobre su propia desaparición, y trae cuestionamientos sobre la virtualidad de la convivencia y la presencia afectiva incluso en la ausencia física.

La organización del material en el formato de cuadernos es un homenaje a la amiga, que recurre con frecuencia al tema de los cuadernos para abordar asuntos de los más diversos, sugiriendo que toda la existencia se organice alrededor de este formato.